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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A História de Um Disco Viajante


    Ouvindo o carteiro na frente de casa, fui até a janela e recebi esse pacote amarelo cheio de selos e carimbos de Pernambuco. Nele, estava meu exemplar do disco Telemática que veio com uma história para contar.

    No fim do ano passado, eu descobri o músico China por acaso e me encantei pelo seu som urbano com um toque retro, sofisticado por questionamentos sobre o mundo sem esquecer os devaneios do coração. Ele estava preparando o lançamento do seu quarto disco e anunciou que os cem primeiros exemplares vendidos seriam autografados. Somado ao preço modesto, a proposta era irrecusável, principalmente se tratando de um disco tão bom quanto Telemática. Fiz minha encomenda e fiquei à espera do meu, mas tive uma notícia inesperada:

   China transportava uma caixa com 200 exemplares de seu novo álbum em um voo da TAM, mas quando recebeu seus pertences de volta, notou que várias capas de CDs estavam trincadas ou arranhadas. O músico também notou a falta de sete exemplares. Além de adesivar a caixa com um aviso de "frágil", China havia pagado pelo excesso de bagagem. Ele relatou que um funcionário da TAM teria se recusado a fazer uma ocorrência e o mandou se dirigir a central de atendimento. Ligando para a companhia, lhe disseram que não se responsabilizavam pelas bagagens dos passageiros. Além da indiferença da companhia, China lamentou o prejuízo, pois muitos dos discos já haviam sido pagos - e alguns até autografados. A situação só pareceu se resolver com a repercussão após ele se manifestar publicamente nas redes sociais, despertando a indignação de seus fãs e colegas, o que fez a TAM finalmente procurar o músico. Toda essa confusão atrasou um pouco o envio dos discos, mas isso não desanimou China de cumprir o prometido:


    Apesar de ser apenas uma dentre várias, a dedicatória de China representa algo especial para mim: o último verso sobre a empreitada de Telemática em atravessar o país, superando os infortúnios das vias aéreas para ser ouvido do nordeste ao sul do Brasil.

Felipe Essy


Quer conhecer a música de China? Confira o clip de "Arquitetura de Vertigem" abaixo:

terça-feira, 22 de julho de 2014

20 Anos de Reinado Felino

    Buenas, pessoal! Todos nós temos filmes que nos marcaram em algum momento das nossas vidas. Nem sempre são clássicos do cinema, mas algo neles nos cativa e transforma nosso modo de ver as coisas. Alguns anos atrás O Senhor dos Anéis e Harry Potter foram exemplos de filmes marcantes para toda uma geração. O primeiro foi muito importante para mim,  mas muito antes dele houve um desenho que me aproximou de coisas essenciais para que eu pudesse ver e escutar o mundo como eu faço hoje. O Rei Leão está comemorando 20 anos de lançamento e para comemorar eu resolvi escrever um pouco sobre esse clássico Disney.

    Se você me permite, antes de falar do filme, eu gostaria de dizer por que ele significa tanto para mim, afinal é - aparentemente - só um desenho infantil, mas há nele coisas, às vezes pequenos elementos, que despertaram meu interesse e guiaram muitas das minhas escolhas mais importantes, direta e indiretamente. Apesar de eu ter apenas três anos na época, eu tinha a fita VHS do desneho em casa e olhava repetidamente por que eu sentia que aquele filme me envolvia completamente de alguma forma. As cores, a música, os personagens. Eu não entendia bem o porquê, mas simplesmente notar isso abriu a minha percepção para o que é o cinema, pois passei a procurar aquilo que me atraia em outros lugares. Por exemplo, o fato do filme ser baseado em uma história de Shakespeare me despertou o interesse por livros que talvez eu não tivesse procurado tão cedo por conta própria, mas sem dúvida o aspecto mais marcante foi a trilha que eu rodei várias vezes no rádio: Por um lado escutar repetidamente os acordes de Elton John nas canções cantadas dos personagens me fez entender a sensibilidade da música pop, enquanto a atmosfera instrumental de Hans Zimmer me introduziu à músicas mais complexas. Aliás a estética das cores complementadas pela trilha é um destaque na animação.


   Em momentos cômicos e divertidos, o ambiente é colorido por tons vivos inspirados nas vestimentas africanas, embalados pelas canções de Elton John, com arranjos de guitarras alegres típicos da música popular africana, enquanto em momentos mais sombrios as cores escuras realçam a atmosfera instrumental de Hans Zimmer, conhecido pela sua grande sensibilidade em representar ideais soturnas e realistas, como em Batman: The Dark Knight (2008) e Man of Steel (2013). A trilha de Zimmer para O Rei Leão foi a primeira trilha pela qual eu me apaixonei e tenho a fita K7 até hoje, também não é por menos: A mescla de música erudita com elementos africanos resultou em algo impressionante, pois é um dos melhores trabalhos de Zimmer fora de seus experimentos com sintetizadores. Ele se inspirou em duas experiências anteriores com a música africana dos filmes A World Apart (1988) e The Power of One (1992), e chamou seu antigo parceiro Lebo M para compor os arranjos corais, resultando num disco tão aclamado quanto o próprio filme. Em comemoração aos vinte anos do filme, um disco duplo intitulado Legacy Collection: The Lion King foi lançado com faixas inéditas da trilha composta por Zimmer e devo dizer que é incrível.

Hans Zimmer (acima); Elton John e Tim Rice (abaixo)
    A qualidade da trilha também se deve a grande contribuição de dois músicos britânicos ilustres, Tim Rice e Elton John, que juntos compuseram as canções entoadas pelos personagens do desenho, muitas delas tornando-se sucessos nas rádios como "Can You Feel the Love Tonigh?" e "Hakuna Matata". A popularização da música "The Lion Sleeps Tonight" também se deve ao filme. Com um time desse a trilha ganhou o Oscar de Melhor Trilha Original, Melhor Canção por "Can You Feel the Love Tonigh?", além de ter outras duas canções indicadas para a mesma categoria. Não bastasse isso, também conquistou dois globos de ouro pelas mesmas indicações. Até hoje é a única trilha para um desenho animado a ter conquistado o Diamon Certification, prêmio concedido a discos que arrecadaram acima de 10 milhões de dólares, ao lado de nomes como Adele (21), Nirvana (Nevermind) e Madona (Like a Virgin) e logo atrás dos Beatles (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band)!

   Falando de números, O Rei Leão teve um reinado nas bilheterias muito além de sua época: Somando um total de US$ 987,483,777, a animação não apenas teve a maior bilheteria de 1994 no mundo todo, mas manteve o recorde de maior arrecadação nos cinemas para um desenho até 2003, superado por Procurando Nemo. Depois foi ultrapassado por outras animações computadorizadas, mas em 2011 com sua exibição em 3D, O Rei Leão passou a ocupar a terceira colocação. Ainda assim, quem é rei nunca perde a majestade: O Rei Leão continua a ser a animação desenhada à mão mais bem sucedida nas bilheterias Disney até hoje e está em 19º lugar entre longa-metragens, acima de títulos como Harry Potter e a Pedra Filosofal, O Hobbit - A Desolação de Smaug e Star Wars III - A Vingança do Sith. No mínimo respeitável, isso sem contar a adaptação para os palcos: Baseado no filme, o musical de mesmo nome foi um sucesso instantâneo desde sua estreia na Broadway e continua em cartaz mesmo depois de 6.700 apresentações, sendo o quarto musical mais encenado na Broadway, mas não pense que a qualidade da produção é medida somente por números: por nomes também:

Musical na Broadway
  Poucos desenhos conseguiram reunir tantos nomes famosos em seus dubladores: James Earl Jones, responsável por dar voz ao personagem Darth Vader, emprestou seu porte vocal ao rei Mufasa. Para viver o arteiro protagonista Simba, ninguém mais apropriado que o eterno mata-aula de Vivendo a Vida Adoidado, Matthew Broderick. O calau azul Zazu era dublado por ninguém menos que Rowan Atkinson,  o Mr. Bean. Whoopie Goldberg interpretava uma das hienas, enquanto o vilão Scar era dublado por Jeremy Irons, o Brom de Eragon. Enfim, a lista de motivos para lembrar desse filme não termina por aqui, mas o post tem que acabar em algum lugar. Então espero que tenham gostado desse post, por que eu adorei escrevê-lo. Aquele abraço!

Felipe Essy

terça-feira, 1 de julho de 2014

Uma Nova Coisa Nostra

     Buenas, pessoal! A banda pernambucana Babi Jaques e os Sicilianos, bem conhecida no sul com sua música frevo-blues está trazendo várias novidades para quem já acompanha os quatro elementos de Recife e surpresas para os desavisados. Confere aí:


    O grupo já visitou o estado diversas vezes e desde sua primeira apresentação na Moenda de 2010 foi impossível ignorar aquela banda com figurino de época no palco. Despertada a curiosidade, a competência musical do quarteto fazia o resto, pois a musicalidade da banda estava longe da plasticidade artificial da música a que estamos acostumados, incorporando diversos influências sem perder a harmonia da unidade num estilo pulsante que flerta com o blues enquanto sorri no ritmo do frevo. Elementos cênicos, musicais e cinematográficos também integram o show, formando um verdadeiro espetáculo. Ano passado a banda retornou ao sul para divulgar seu novo disco, Coisa Nostra, gravado após a vitória do grupo no festival Pré Amp 2012 e ficou evidente o amadurecimento da sua proposta musical tanto no excelente álbum quanto no desenvolvimento da performance no palco, mas Babi Jaques e os Sicilianos tinham ambições muito maiores e junto com muitos novos projetos resolveram também mudar o nome da banda para Coisa Nostra, batizando a nova fase do grupo.


    O quadrinho acima usado para divulgar o novo nome da banda é uma das novas produções do grupo assinada pelo guitarrista Well Carlos, explorando um pouco mais dos personagens interpretados pelos integrantes em cima do palco na misteriosa ilha de Nostrife, de onde eles dizem ter vindo. Os gibis estão sendo disponibilizados no site oficial www.coisanostra.com, assim como os vídeos em que Babi, Well, Baros e Lasserre trazem à vida a banda mafiosa, não apenas através com músicas, mas em curtas especialmente produzidos pelo grupo, como o abaixo:


    Na verdade, os curtas não são a única participação cinematográfica do grupo que também ajudou a produzir o documentário Sabe lá o que é isso?, sobre a evolução do frevo em Recife através da história do Bloco dos Batutas, em que os integrantes da Coisa Nostra também falaram sobre suas concepções musicais e interpretaram algumas canções do bloco. O documentário foi recentemente disponibilizado na íntegra gratuitamente on-line e o mesmo vale para o disco da banda, o que mostra que a Coisa Nostra tem uma visão muito além do mercado tradicional de música. Outra nova iniciativa do grupo é a criação do jornal quinzenal A Gazeta de Nostrife que será lançado em breve. Enquanto ele não chega, podemos conferir a próxima edição do gibi da Coisa Nostra amanhã, dia 2 de Julho.

    Para fechar a postagem, nada melhor que conferir um pouco do som da Coisa Nostra, fiquem então com a música A Lágrima do Palhaço do episódio Na Mansão dos Córdulas. Um abraço!

Felipe Essy


terça-feira, 8 de abril de 2014

Uma Volta pelas Trilhas

     A trilha sonora, assim como a fotografia e efeitos especiais, é um recurso que pode ser usado como um complemento ou elemento principal em um filme, não raras vezes ela o transcende e ecoa durante décadas como os grandes temas do cinema, mas cada trilha tem uma proposta e é sobre elas que o blog divaga hoje.


     As trilhas sonoras surgiram antes mesmo que o cinema tivesse som, pois enquanto os filmes mudos eram exibidos era comum um pianista acompanhar a exibição estabelecendo ritmos alegres ou tristes para complementar a narrativa. Essa talvez seja a forma mais fácil de compreender como a trilha funciona, pois ela pode ser apenas uma camada de fundo ou ser usada para transmitir informações que a imagem não consegue. Como o cinema surgiu muito antes que instrumentos elétricos e outros recursos modernos estivessem à disposição, é natural que as trilhas tenham se desenvolvido por muito tempo através das orquestras sendo a forma mais comum de ilustrar um filme ainda hoje. Assim acho justo começar com atual mestre desse estilo mais tradicional que continua a compor músicas surpreendentemente criativas para uma modalidade tão revisitada: John Williams.

John Williams no centro, acompanhado de Steven Spielberg (dir.) e os personagens marcantes dessa parceria.
     Williams é um veterano em Hollywood e compôs alguns dos temas mais conhecidos do cinema. Dentre seus trabalhos conhecidos, pode se destacar os temas de TubarãoE.T.Jurassic Park, Star Wars, Indiana Jones e Superman, que associamos aos filmes assim que os ouvimos e não apenas como uma vinheta, mas como uma representação musical da essência da história. Harry Potter e a Pedra Filosofal é um de seus melhores trabalhos onde podemos perceber a versatilidade de Williams em criar canções que conseguem representar a fantasia de um universo fantástico com músicas que não apenas repetem um tema constantemente com pequenas variações, como normalmente é feito, mas sequências totalmente diferentes - e geniais. No site Film Music Notes, o canadense Mark Richards analisa a faixa Hedwig’s Theme, que inicialmente era apenas o tema da coruja de Harry e se tornou a principal canção do filme. Reproduza a canção abaixo enquanto estiver lendo o trecho a seguir:



      O solo de celesta (piano com sons metálicos) combinado com alguns efeitos introduz uma atmosfera lúdica e misteriosa prestes a se anunciar com o acompanhamento de violinos que crescem ao fundo (0:34) se transformando numa sequência de cadências e progressões de cordas que lembram o voo da coruja, ao mesmo tempo que intensifica a atmosfera mágica do filme. Assim a trilha integra um filme como outra camada narrativa e não um mero fundo musical, mas conforme surgiram novas formas de representar visualmente uma história, as trilhas também desenvolveram outros meios.

Hans Zimmer absorto em sua ilha de trabalho.
       Hans Zimmer se tornou conhecido por explorar a melodia de ruídos e sons distorcidos para transmitir ao espectador a sensação do personagem em cena, ampliando a significação dos efeitos de som para criar metáforas musicais, de uma modo semelhante ao feito com os instrumentos tradicionais. Em Batman - O Cavaleiro das Trevas, Hans usa ruídos agudos e inconstantes feitos com a fricção repetitiva de um arco sobre as cordas de um instrumento para lembrar a tensão de um momento, por exemplo. Zimmer se aprofundou tanto nesses recursos em Batman que sua trilha se tornou um mero adorno sonoro para o filme perdendo sua fluidez musical própria, mas um equilíbrio entre a função e forma desse estilo pode ter resultados incríveis:

      Em O Homem de Aço Zimmer utilizou suas técnicas características apenas para ilustrar a perspectiva interna dos personagens enquanto destacava os temas do filme em sequências de progressão musicais transmitindo a ideia de superação e heroísmo, mas de uma forma contida para evitar o lúdico típico da versão clássica de 1978 composta por John Williams. Zimmer fala um pouco sobre sua forma de compor trilhas nesse breve vídeo de The Concious of Creating the Film Score (sem legendas):



      Assim como Hans Zimmer utilizou sons inusitados para criar uma nova maneira de integrar a música em filmes, a dupla Daft Punk utilizou elementos de música eletrônica fundidos com instrumentos eruditos para não apenas imergir o espectador na atmosfera de Tron - O Legado, mas criar o próprio ambiente do filme como uma ferramenta narrativa. Ao contrário de Hans Zimmer, o Daft Punk utilizou recursos eletrônicos para criar uma trilha tradicional, usando referências características de temas de videogames e hits dos anos 80 para criar uma realidade virtual épica numa espécie de cyber-ópera, nos fazendo sentir como um "usuário" daquele universo. Por isso o diretor Joseph Kosinski optou por cenários escuros e simples, deixando espaço para que a trilha nos provocasse a preencher o resto. A faixa "The Grid" resume um pouco essa ideia, progredindo conforme o narrador (Jeff Bridges) conta como entrou na Grade (uma realidade virtual):


      Um arpejo de metais anuncia a imersão do espectador (ou usuário) na história que começa com um sintetizador lembrando os jogos de videogame oitentistas. "A Grade. Um fronteira digital. Eu tentei imaginar conjuntos de informação como se elas se movessem pelo computador." E assim que "movessem pelo computador" é dito, um sequência continua de cordas começa a crescer como se representassem os elementos vistos pelo narrador. "Com o que eles se pareciam? Naves? Motos?" Os violinos dominam a música como se as naves e as motos tomassem o ambiente descrito. "Com circuitos feito estradas." A sequência cresce antecipando um fato que será revelado pelo narrador. "Eu continuei imaginando um mundo que eu pensei que jamais veria. E então um dia... Eu entrei." No momento da revelação os sintetizadores envolvem o espectador na atmosfera virtual do filme como se ele também entrasse no jogo.


     Espero que tenham gostado do post, pessoal, por que eu realmente gosto de falar sobre trilhas e poderia escrever mais se a postagem já não estivesse atrasada. Um grande abraço!

Felipe Essy

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A Arte Vive na Cidade

    Buenas, pessoal! Vendo o espaço Qorpo Santo lotado até as escadas para a assistir a encenação de O Auto da Compadecida pela companhia Cogumelos Azuis semana passada, não pude deixar de perceber o verdadeiro espetáculo que acontecia naquele momento: a arte em movimento na cidade e é sobre isso que o blog divaga hoje.

Companhia Cogumelos Azuis ao fim do espetáculo "O Auto da Compadecida".
    Ser artista em Santo Antônio nunca foi fácil. Além das dificuldades de falta de recursos e incentivo comum à profissão, sempre foi difícil encontrar lugares para divulgar seu trabalho e atrair público - quando havia. Esse ciclo vicioso acabava por sepultar diversas iniciativas com alto potencial antes que elas se desenvolvessem completamente, mas isso parece estar mudando graças a iniciativas para desenvolver a produção cultural na cidade e o estreitamento entre artista e público.

   O teatro, por exemplo, se renovou em Santo Antônio através do trabalho desenvolvido em oficinas escolares com alunos do ensino-médio, seduzidos pela arte dramática que não apenas originou novas companhias, mas promoveu um intercâmbio de experiências entre os atores mais velhos e os iniciantes que aos poucos está criando uma cena artística (para não dizer "cena cênica") no município, mas outro fator também foi decisivo para que o sucesso da peça de O Auto da Compadecida acontecesse: comunicação.

     Mesmo artistas excelentes podem ter problemas se não tiverem uma demanda pelo seu trabalho, mas há algum tempo as pessoas descobriram como a comunicação instantânea e direta pode resolver isso. Você já deve ter ponderado se ia ou não em algum lugar dependendo se mais pessoas fossem também, e muita gente acaba não indo num show ou exposição por esse motivo. Não basta um cartaz ou mesmo um amigo seu te convidar, você tem que ter certeza de que outras pessoas também irão, mesmo que não seja para vê-las. É dessa forma que cada vez mais o Facebook anda servindo como ferramenta de movimentação de público, onde artistas convidam para a apresentação e amigos ajudam a incentivar outras pessoas a conhecê-los. Assim nossa arte aos poucos vai se organizando e desenvolvendo num novo ciclo: o incentivo virtual, a realização prática seguida de novos incentivos. O que era o problema tornou-se a solução. A pergunta que fica é se esse fenômeno está acontecendo só com o teatro, ou com outras artes também: sim e não.

Banda Percivais, agitando a cena local há dez anos.
    A música sempre foi algo muito forte entre adolescentes e não apenas aqui. Com a internet muito mais acessível do que era um tempo atrás, discografias inteiras ficaram ao um click de distância e a aproximação de pessoas com os mesmos gostos musicais se tornou muito mais fácil, no entanto esse consumo individual não parece estar beneficiando muito os artistas locais, pois a falta de espaço para atuarem - e às vezes até hostilidade contra seu estilo musical - desestimula as bandas a saírem da garagem e os sub-gêneros, por menor que sejam, costumam afastar adeptos de diferentes vertentes de um mesmo estilo, enfraquecendo a classe como um todo. Falta uma iniciativa de artistas locais mais experientes ou até mesmo de entidades e secretarias para orientar e estimular esses novos músicos, ajudando a fomentar uma cena musical sólida.

   A literatura é um caso diferente, pois o consumo das obras não conta com o envolvimento do artista que as criou e normalmente são apreciadas de uma forma mais particular, mesmo assim precisam de um destinatário tanto quanto as outras. É notável o crescente número de escritores em Santo Antônio, pois a informação e ferramentas virtuais tornaram essa atividade mais sedutora e eficiente. Somente em Abril já está anunciado o lançamento de cinco livros literários para esse ano, além de publicações científicas produzidas pelas escolas e outras instituições no município. Os blogs também veem sendo outro meio pelo qual a escrita, literária ou não, está se popularizando.

    As artes plásticas como desenho e pintura seguem clandestinas, sobrevivendo entre trabalhos de ilustração e eventos fora da cidade, mas sem desistirem de se fazerem presentes através de publicações virtuais e pequenas intervenções na paisagem da cidade como essa aqui:

Arte urbana flagrada em 2012
    Vale lembrar que não sou especialista no assunto, mas não posso negar que gosto de escrever sobre ele. Sendo assim espero que tenham gostado e perdoem qualquer equívoco. Um abraço!

Felipe Essy

terça-feira, 25 de março de 2014

Quanto Vale uma História

   Buenas, pessoal. Hoje eu estava pensando em histórias, aquelas que marcam a gente e nos acompanham de alguma forma pelo resto de nossas vidas. Um livro, um filme, um desenho, até uma música, não importa o formato, histórias fazem parte da gente e é sobre isso que o post divaga hoje.


   Normalmente associamos histórias à fantasia, algo não real e quem aprecia uma leitura ou mesmo filmes acaba muitas vezes sendo visto como uma pessoa que se desconecta da realidade, entorpecida em seus sonhos de verão. Realmente a Terra-Média tem seus encantos, mas será mesmo isso que nos seduz nessa arte? Um meio de fugirmos dos nossos problemas? Acho que não. Na verdade, eu acredito justamente no contrário: Nós gostamos de histórias por que nos identificamos com ela.

   Desde as novelas das nove até as grandes tragédias shakespearianas, as histórias mais populares são aquelas que exploram temas que todo ser humano conhece e se depara em algum momento: sentimentos. Amor, ódio, vingança, medo, tudo que está em nós como uma bomba relógio prestes a estourar quando se colide com valores emocionais diferentes. Até mesmo nos grandes épicos da fantasia esses elementos são o que sustentam uma trama, pois se não há uma justificativa forte para os personagens se envolverem em uma empreitada, não conseguimos nos entregar a história, não nos apropriamos dela.

   O que diferencia uma história boa de uma ruim então? O quanto ela significa para nós e isso só acontece se houver algo ali que nos convença, que faça sentido, sendo assim um livro ou um filme, mesmo que de ficção, não nos cativa se não apresentar elementos que de certa forma trabalhem nossa realidade, seja através de problemáticas sociais ou emocionais, e é isso que torna algumas histórias tão importantes: por que em algum momento, nos inserimos naquele personagem rodeado de obstáculos esperando que ele nos mostre como chegar no ponto final.

Felipe Essy

quinta-feira, 13 de março de 2014

Música Marginal

    A música assim como outras expressões artísticas é fruto da relação do íntimo de seu criador com o mundo que o cerca, sendo um fenômeno tão extraordinário que deve ser preservado com todo cuidado e desenvolvido através de apoio e iniciativas que favoreçam seu florescimento, pois a arte oxigena a realidade, dando a centelha de abstração que a criatividade necessita para reinventar constantemente o modo de vivermos e convivermos, no entanto sabemos que não é assim, mas dificilmente percebemos o porquê.


   Sempre que conhecemos uma banda que gostamos, esquecemos de quantos fatores tão adversos conseguiram ser combinados em harmonia, pois cada integrante possui uma influência, recursos, tempo e modo de se relacionar com os demais, por isso manter uma banda em si já é um grande trabalho. Quando isso gera grande resultados, é algo admirável, no entanto mesmo as bandas mais exaltadas no cenário independente dificilmente sobrevivem por muito tempo. Sabendo de toda dificuldade que envolve um projeto musical, é fácil supor que o fim resultou de conflitos internos, mas eles apenas reagem a um fator externo e o real pivô do desfalecimento musical no cenário independente: a clandestinidade.

   Um artista como o músico, principalmente quando integrado a um grupo, precisa de um espaço e um publico para o qual se expressar, pois se não houver destinatário, qual a importância da mensagem? Mesmo os projetos realizados pelo simples prazer de sua execução precisam de um campo onde possam se manifestar, e para conquistarem o direito de atuar nesses ambientes eles precisam de um certo reconhecimento, mas como reconhecer quem não aparece por falta de oportunidade? É um ciclo deficitário do cenário musical e não apenas dele, e que aponta o oposto como a solução: o circuito musical.

    Muito se fala no circuito musical gaúcho, paulista e etc, mas pouco da estabilidade de um ciclo de atuação artística pode ser visto na realidade, principalmente no nosso estado, pois as bandas não conseguem se sustentar apenas com o consumo local divido com tantos outros artistas, tornando a exploração das regiões adjacentes uma maneira de se manter em atividade, mas a falta de tempo e dinheiro dificultam o desbravamento do campo no estado e as bandas acabam por não terem para onde ir, interrompendo o que poderia ser um grande trabalho. A organização de um circuito independente não é uma ideia nova, tão pouco algo fácil, mas o fato de novas vozes continuarem a brotar do chão apesar da desolação da seca ou violência da enchente, prova que o campo é fertil. Cabe a nós cultivá-lo.

Felipe Essy

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Brado do Ornitorrinco!

      Buenas, pessoal. Meus amigos Daniel Villaverde e Doutor Insekto haviam acabado de lançar o novo EP da sua banda Ornitorrincos em vinil e fiquei curioso pela ideia. Assim que escutei, eu tive e repetir a doze umas três vezes até que eu me conformasse com as únicas cinco faixas do disco. Não conheço muito punk rock, mas não vejo por que não falar de algo bacana, especialmente por que mostra para quem se sente sozinho nos porões da contra-cultura no interior que banda de rock não nasce só em Porto Alegre.

Guilherme (guitarra), Lucas (bateria), Daniel (Vocal) e Insekto (baixo)
    Além de um integrante de Lajeado e Santa Cruz, a Ornitorrincos conta com duas figuras ilustres da nossa terrinha patrulhense que valem uma breve apresentação: se a voz de Daniel Villaverde não é uma das mais respeitadas no rock gaúcho, no mínimo é uma das mais entusiasmadas, afinal já teve sua própria loja de discos e integrou projetos corajosamente inusitados como a Facão Três Listras, onde misturavam a gaita do tradicionalismo com o grito rouco do punk, banda da qual Gustavo Vargas também fazia parte, esse mais conhecido como o Doutor Insekto dos quadrinhos infames à nankin, largando a pena só para chaqualhar a barba sobre o baixo da banda de vez em quando.


     Misturando punk e hardrcore com a energia da língua española, o EP traz 5 músicas onde o baixo mostra logo na primeira faixa Seguridad Vs. Inseguridad que não está lá só para acompanhar a guitarra, que também não fica só em riffs secos adicionando uma melodia sem frescura. O hardcore da 20 de Septiembre critica a “xenofobia podrida” do tradicionalismo exagerado contra a qual Daniel canta os versos rasgados da música seguida por Volvi a Patinar, sempre numa mistura de espanhol meio portunhol, refletindo a influencia da cena uruguaia, argentina e chilenas sobre grupo que acredita que a força dessa língua transmite perfeitamente a energia do punk.

     O lado B do disco não poderia começar de outra forma se não pelo rock rasgado de Ca(hos)pital, que na verdade é um poema concretista escrito pelo Insekto ironizando como o dinheiro continua a salvar a vida dos ricos e condenar os pobres no nosso sistema de saúde:

Índole má, venda de nú(meros) 
Cifras altas, cifrão (no) nome 
- home(m)nagem pós-tuma... 
aragem 
Caos - tro - fóbica alarmante 
Mantenha sigilo bancário 
Cárie econômica - anêmica 
Onomatopéia em nú(meros) 
Árabicos - romanos - epopéia 
Com - grega - ação.

     O vinil encerra muito bem com a Diários, Tele y Internet que é a minha preferida, dando mais destaque a melodia dos acordes da guitarra no hardcore característico da banda e deixa você com aquela revolta de o disco ter acabado na melhor parte. Vocês podem conferir o disco na integra no site da banda (clique aqui), mas se você quer saber minha opinião ficou muito melhor no vinil, principalmente pela arte do encarte feita pelo curitibano Chico Félix, que já havia dividido espaço com a Ornitorrincos no vinil anterior com sua antiga banda Pluto.

Ornitorrincos apoiada pelo pessoal que agitou  show no Entre Bar em 2012
     A Ornitorrincos estará participando de um EP em conjunto com a banda francesa La Flinge com a faixa Punk to Cross Borders. O lançamento será no próximo dia 25 em Porto às 21:30 no Black Stone Tattoe & Estudio, mas você já pode conferir as músicas do EP aqui


Quer saber mais?


domingo, 22 de dezembro de 2013

Avalanche Elétrica

      Buenas, pessoal! Apesar das dificuldades, muitas bandas vem se destacando no cenário independente e mostrando todo potencial musical que nosso estado tem. Uma delas é a dupla Snow Twins que saiu dos covers em Osório para um marcante trabalho autoral pelo litoral norte e região metropolitana. Bota o som deles para tocar aí e confere um pouco mais sobre a Snow Twins:


     A parceria começou antes da banda, com o Luan e a Helen se conhecendo na faculdade, mas as afinidades musicais dos dois não demoraram a convergir num projeto feito com tanta dedicação quanto eles tinham um com o outro, sendo difícil separar oque é da banda ou do casal, na verdade isso virou uma coisa única e o resultado não poderia ter sido melhor.


        O que primeiro chama a atenção é sem dúvida o refinamento estético da banda. Além dos instrumentos e roupas, a Snow Twins traz todo o equipamento usado no show nas cores brancas e pretas dando jus ao nome “invernal” do grupo. Essa dedicação visual e outras influências a banda trouxe de seu projeto anterior de covers do White Stripes, que podemos perceber nessa amostra do seu disco de estreia:


       O rock acidamente bruto das sete composições que integram o álbum vestem perfeitamente bem as letras desconcertantes da dupla. A arte e produção do disco só colaboram para ser um daqueles discos que, mesmo deixando até mesmo o corpo mais inerte em total frenesi em “Amnesia”, te obrigam a parar para apreciar a arte da capa acompanhando as letras – que quase funde o cérebro na frenética “Lizard’s Scheme”. “Over the Line” também não ficam atrás quando é para dançar hipiléticmente sem vergonha nenhuma, mas “Armadillo” com certeza é a musical fatal do disco com uma boa letra de alguém inevitavelmente conflituoso como todo mundo num bate-estaca que só o bom e velho rock sabe oferecer.

         Excursionando pelo estado, a Snow Twins recebe cada vez mais retorno do seu trabalho, tendo suas músicas executadas inclusive em rádios gregas, afinal os conterrâneos de Sócrates são os que mais procuram o som da banda no SoundCloud depois dos americanos e nós da terra das palmeiras, é claro. A Snow Twins continua divulgando seu disco e você pode conferir o próximo show confirmado para 10 de janeiro no Signos Pub, em Porto Alegre. Aquele abraço!

Felipe Essy

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A Volta ao Mundo em 33 Rotações

        Buenas, pessoal! Eu sou uma pessoa que gosta de rituais românticos como passar café apreciando o ar da manhã ou escutar um bom disco enquanto manuseio a capa. Hoje eu vou falar um pouco sobre esse último, mais especificamente dos vinis que eu mais gosto e aquelas pérolas que eu garimpei por aí. Curte aí:


      O primeiro vinil que eu escutei foi o Help dos Beatles, só para escutar a faixa título, mas deixando o resto tocar descobri que aquela banda tinha uma sensibilidade musical que me cativou, talvez pela semelhança aos Bee Gees que eu cresci escutando com meu pai. Fuçando nos antigos vinis da minha tia que estava há muito tempo guardados eu encontrei o Rubber Soul e o meu preferido, a coletânea Beatles Forever que escutei por semanas a fio. Ainda sonho em ter o Abbey Road e o Magical Mistery Tour, mas eu chego lá.


       Eu cresci escutando as musicas antigas que meu pai gostava e naturalmente meu gosto musical se inclina para bandas de outra época. Uma delas que eu ouvi muito com ele foi o ABBA e frequentemente eu escuto esse disco que tem faixas que eu adoro como “SuperTrouper” e “Gimme!Gimme!Gimme!


     Um tempo atrás minha eletrola quebrou e fiquei um bom tempo sem escutar meus bolachões. Visitando uma tia da Márcia, comentei o fato e eis que ela me diz que tem uma que não usa. Não pensei duas vezes e botei a vitrola no porta-malas com toda cara de pau que a música merece, mas como não vieram as caixas eu resolvi plugar na antiga eletrola da minha tia. Não é que deu certo?


      Assim eu pude finalmente matar a saudade dos meus velhos amigos. Os nacionais são uma unanimidade na minha prateleira e com os vinis não poderia ser diferente. O que eu andei escutando mais foi o disco Chorando Pelos Dedos, do Joel Nascimento, que surrupiei há anos da minha mãe por pura gana nostálgica. As músicas são incríveis, creio que a maioria são interpretações feitas pelo Joel Nascimento no seu bandolim. Se você tiver a oportunidade de escutar vale muito a pena.


        Depois de ouvir repetidamente meus antigos vinis, fiquei querendo ouvir coisas novas... quer dizer, nem tão novas assim. Peguei as pilhas de LPs e 78 rotações que eu não tinha a menor ideia do que eram e comecei a escutar os que me despertavam a curiosidade. Acabei encontrando muita coisa boa, mas o que mais chamou a atenção foi de longe o disco homônimo da banda alemã Genghis Khan, que além de se vestir com toda extravagância que os anos 70 permitiam, também misturavam o pop do ABBA com a polka alemã nos embalos da dança russa. Assista o vídeo da canção “Moskow” no Youtube que você vai ter uma noção do negócio.



      Quem me acompanha há algum tempo sabe que eu amo ouvir trilhas e não poderia ser diferente se tratando de vinis. Apesar de eu ter alguns que eu herdei da minha tia – ou assim será por livre e espontânea pressão, como o ótimo Em Algum Lugar do Passado, eu comprei somente uma em vinil até agora, o Hair. Para quem não conhece o filme, é a adaptação de um musical sobre o movimento hippie nos Estados Unidos durante a guerra do Vietnam. Além das coreografias e figurino serem tudo de bom, a trilha é excelente e valeu cada centavo que eu desembolsei. Além de ter uma capa interna linda, o álbum é duplo e não faltam faixas para querer ouvir como a clássica “Aquarius”, “Hair” e “Black Boys/White Boys”.

     Bem pessoal, há muitos outros discos que eu não falei, mas espero que vocês tenham gostado dessa amostra desse meu material e que procurem conhecer algum que lhes tenha chamado a atenção, mas o post de hoje não termina aqui.

     Pouco antes de publicar eu vi que este era o post número 200 e fiquei especialmente feliz pensando em quanto o blog evoluiu nesses três anos através de muito trabalho e dedicação, tendo as publicações interrompidas muito raramente quando há obstáculos de força maior, como o problema do meu PC semana passada. Por mais que escreva e faça quase tudo sozinho, grande parte do que eu gosto no blog hoje em dia só foi - e continua sendo - possível graças a grande ajuda da Marcinha, que não apenas escuta eu lendo as postagens por telefone de noite antes de publicar e quase sempre é a primeira pessoa com quem eu discuto os assuntos da que eu escrevo, mas por que realmente faz muita coisa pelo projeto e também acredita nele. Obrigado por tudo, tu é uma das principais razões de eu gostar tanto do que eu faço. Um grande abraço a todos e nos vemos semana que vem!

Felipe Essy 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Renato Muller e o Canto da Gaita

        Buenas, pessoal! Santo Antônio da Patrulha até bem pouco tempo atrás era uma pequena cidade interiorana e mesmo assim talento nunca faltou por aqui. Um exemplo disso é o trabalho do gaiteiro Renato Muller que já foi premiado diversas vezes e participou do Rock in Rio deste ano com a banda de música irlandesa Irish Fellas. Confere um pouco da história dessa figura:


       Fascinado pela gaita de 8 baixos que seu irmão havia conseguido em troca de uma moto Gareli, Renato cresceu com o instrumento nos CTGs, passando pelos grupos de bailes até algumas experiências com punk rock que agregou ao longo da sua carreira resultando numa perspectiva musical versátil. Um delas bem conhecida aqui em Santo Antônio:

       Daniel Villa-Verde e Gustavo Vargas idealizaram a Facão Três-Listras em que misturavam um punk rock visceral com o tradicionalismo da música gaúcha, trazido às garagens amplificadas pela gaita ponto de Renato Müller: " A facão 3 listras surgiu de um projeto do Dani Villa Verde e do Gustavão. Como nunca vi fronteira para música, encarei a empreitada, foi muito doido este trabalho.A banda terminou, mas seus integrantes continuaram a atuar no campo musical e Renato passou a residir em Porto Alegre onde participou de diversos projetos incluindo a trilha sonora do filme Em Teu Nome que lhe rendeu a premiação do Festival de Cinema de Gramado em 2009.



     No final do mesmo ano, Renato se uniu com outros músicos na gravação do projeto instrumental Garatuja que engloba as diferentes influências dos participantes, dentre eles o também patrulhense Zelito Ramos e Paulinho Goulart. Atualmente Renato Muller integra o Irish Fellas, banda porto alegrense dedicada a música tradicional irlandesa que participou do Rock in Rio esse ano.


"O Rock in Rio foi uma grande experiência para os Fellas, lá nos juntamos a mais 5 músicos, um de Londrina, outro de Varginha, mais um de Sampa e dois Cariocas. Tocamos todos os dias na Rock Street, isso me rendeu uma LER (lesão por esforço repetitivo), mas valeu muito, abriu muitas portas."

        Como resultado desse trabalho que vem agregando elogios, o grupo está preparando seu primeiro disco com previsão para ano que vem. Paralelamente ao trabalho a jornada pelos pubs com o Irish Fellas, Renato é professor de gaita na Fabrica de Gaiteiros do Instituto Renato Borghetti, com o qual participou recentemente do programa Galpão Crioulo:


"Dou aulas para 20 crianças de 7 a 14 anos, onde ensino musica tradicional gaúcha, mas também atrevo-me a ensinar alguns temas irish para os mais adiantados no estudo. Também têm escolas em Guaíba (onde iniciou o projeto), Tapes, Barra do Ribeiro e São Gabriel."

        O ano nem terminou e Renato Muller já anunciou alguns projetos em andamento para 2014: Tendo desenvolvido uma série de trabalhos teatrais envolvendo desde malabaristas até o teatro de bonecos. Renato comentou que um projeto com mamulengos, teatro de fantoches tipicamente nordestino, terá uma grande movimentação no ano que vem e que um disco solo também está por vir em breve. Enquanto isso ficamos aguardando mais um de seus trabalhos sensacionais.

Um agradecimento especial ao Renato que respondeu pacientemente
todas minhas perguntas, um grande abraço!

Felipe Essy

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O Vinil Ainda Vive

        Buenas, pessoal! Há um tempo atrás muita gente discutia qual era o melhor, CD ou vinil, hoje em dia só românticos como eu ainda compram CDs e poucas pessoas ligam para isso, mas o vinil voltou a ganhar as prateleiras e quem não curte os bolachões não entende por que tanta gente teima em usar essas mídias obsoletas. Será que são mesmo?


         Muita gente não entende por que escutar vinis. Grandes, precisam ser virados quando o lado acaba e não são muito práticos. Sendo assim escutar discos atualmente é antes de tudo um hobby romântico. O ato de pegar aquele bolachão da prateleira, contemplar a capa (bem maior que de um CD) e fazer todo aquele processo para usar a vitrola: girar o botão para phono, acomodar o disco no prato, ajustar a velocidade e delicadamente pousar o braço da agulha esperando a mágica acontecer. Quando a primeira nota toca não há coisa melhor. Além disso fique você sabendo que tecnicamente falando o CD nunca alcançou a qualidade de um vinil:

        Tudo começa ainda no processo de gravação, pois o áudio é analógico por definição. Enquanto o CD tem que convertê-lo em sinais digitais, o vinil reflete o áudio original, imprimindo os sinais analógicos diretamente no disco, sem nenhuma perda de informação. Já a conversão para o formato digital consegue captar o sinal analógico apenas até determinada velocidade, havendo perdas de informação no processo. Sons de transição repentina como bateria e trompete sofrem distorção por causa da velocidade de captura.


          No gráfico acima fica fácil perceber a perda de informações durante a compressão digital do áudio, no entanto também não podemos esquecer que qualquer poeira sobre a superfície do vinil prejudica sua reprodução, além de ser mais sensível a arranhões do que o CD. Enfim, tudo é uma questão de preferência. No meu caso, eu gosto de escutar bandas antigas em vinil e as novas em CD por uma questão de puro romantismo, afinal minha vitrola não é tão boa que a qualidade de som tenha alguma diferença, mas mesmo assim ouvir vinis é tudo de bom.

Essa semana consegui uma vitrola para tocar meus discos que há mais de cinco anos não tinham onde serem executados, infelizmente ela veio sem as caixas de som e como eu não tinha nenhuma por casa, resolvi “dar um jeito”: Eu ganhei da minha tia uma eletrola enorme que fora da irmã da minha avó. Sabendo que meu pai antigamente costuma desconectar os fios do auto-falante para plugar em outros aparelhos, resolvi fazer o mesmo puxando os fios para a vitrola que eu tinha trazido. Foi emocionante ver aquele “móvel” soar músicas que há muito tempo não se escutavam pela casa. O primeiro disco que eu coloquei foi a coletânea Beatles Forever da época da Apple na faixa “Day Tripper”. Fiquei o resto da semana ouvindo meus discos dos Beatles, minhas trilhas de Hair e Somewhere in Time e até alguns 78 rotações de sabe-se lá quando. Vinil é mesmo para quem gosta desse tipo de coisa e, para apaixonados como eu, música boa vai bem em qualquer rotação.


Felipe Essy

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A Saudade de Letícia Persiles

       Buenas, pessoal! Um tempo atrás a banda Manacá chamou a atenção de todos com sua música que misturava  o romantismo dos ritmos regionais com agressividade da guitarra e bateria, emoldurados pela voz cativante e sedutora de Letícia Persiles, que com seus vestidos de retalhos deu a banda a identidade visual perfeita para seu conceito de antropofagia cultural. Após enquadrar seus olhos de ressaca em Capitu e protagonizar a novela Amor Eterno Amor, a cantora lança seu primeiro disco solo As Cartas de Amor e Saudade que eu comento no post de hoje.


       Eu conheci a Letícia Persiles através do trabalho dela com a banda Manacá e com o fim go grupo em 2010, os fãs da banda ficaram esperando pela sequência do trabalho musical dos integrantes. Enquanto o guitarrista Luiz César trazia à vida o maravilhoso projeto Turmalina com o letrista Diogo Brandão, havia muita expectativa sobre o próximo passo musical da vocalista Letícia Persiles. Seu primeiro disco solo, As Cartas de Amor e Saudade, ao mesmo tempo que sacia nossa saudade da voz de Letícia, também nos faz conhecer melhor a a cantora dos olhos verdes.



        Nesse álbum, percebemos os elementos poéticos e folclóricos marcantes no seu trabalho anterior, no entanto Letícia deixou a agressividade elétrica de lado para se aprofundar no romantismo e sensibilidade dos gêneros tradicionais, numa bela parceria com o acordeonista Toninho Ferragutti que sentimos logo na primeira faixa: Tamarametista toma das propriedades eufóricas da fruta para nomear a personagem apaixonada retratada na canção que começa no canto solito do violão castelhano, subitamente invadido pelas palmas que lembram o borboletear do amor que chega fora de compasso roubando nosso olhar: 

Luz de Ametista
tâmara de teus olhos
olhe os passarinhos a cantar!

Clareou e as estrelas 
lascou me um pedaço
deaço foram descansar.

Meu amante chegou
outro do coração
Hão de bater tuas asas, Amor.

     A melodia emanada dos arranjos de Ferragutti na música seguinte montam o cenário romanticamente nostálgico para emoldurar os versos de Letícia em Confeito Saudade. A canção parece pintar uma aquarela de uma sensibilidade interiorana, palco comum das influências folclóricas da cantora que começou como atriz nos tradicionais teatros de rua. Em No Passo do Passarinho, o cheiro de fábulas não é mera impressão, pois Letícia está curtindo a maternidade com seu filho Ariel que há quatro anos veem influenciando a perspectiva da artista nesse período tão emocionalmente envolvente, durante o qual o disco foi produzido. O álbum também conta com duas regravações: Dos Cruces, de Carmelo Larrea e a surpreendente Youkali Tango, de Kurt Weil, que evidencia no charme da língua francesa o timbre sedutor de Letícia, acompanhado pelo acordeon vibrante de Bebê Kramer.

    A beleza da voz de Letícia Persiles mais uma vez rouba a cena em Catavento, em melodias suaves e tenras como que cheias de saudade do próprio tempo:


Seca a desabafar, se acabar, no meu
lugar, sabe lá, sabiá, Sabah, se o
mar, o mar de lá, delatar, no céu o
venta a cantar, catavento a me
tragar, traga me logo o lugar,
daquele tempo que não passou,
atemporal, temporal de amanhã e
hoje a manhã se estenderá e a
tarde está te esperar, te esperas
nua, lua e crua.
vem, ventura minha que já sou tua e a jurar pro vento, tempo a curar, vento a passar e passa que sara, Santa Sarah, rogai por nós ao luar e ao passarinho que foi cantar do ninho, o nosso niño, nosso lar.

      Os Versos e as Horas encerra o disco com o mesmo elemento castelhano que abre a primeira faixa, dando assim uma estrutura harmoniosa ao disco. Vale a pena falar um pouco sobre a faixa-bonus Quem Sabe, uma regravação da canção de Carlos Gomes feita pelo Manacá para a mini-série Capitu em 2008. A presença dessa canção no disco é um reconhecimento de Letícia ao carinho que os fãs tinham pelo seu trabalho anterior, ao mesmo tempo que nos possibilita reconhecer o quanto a artista mudou desde então, desenvolvendo-se musicalmente como a artista mais madura que escutamos em As Cartas de Amor e Saudade.


     Antes de encerrar o post, eu não poderia deixar de falar da fantástica arte do álbum feita por André Luiz Machado com ilustrações da própria Letícia. Assim como no disco do Manacá, podemos perceber diversas referências folclóricas, mas dessa vez com um toque mais pessoal, indo desde recortes da dança da cigana do clip de Diabo com o Manacá até a ternura dos riscos de giz da infância que Letícia veem contemplando com seu filho. Agora um fato pessoalmente curioso: Dando uma olhada nos encartes dos discos aqui em casa, notei o mesmo sobrenome que herdei de meu pai, Schoenardie, nos agradecimentos do disco. Assistindo a entrevista que Letícia no programa do Jô, descobri que a figurinista Thanara Schönardie é quem ajuda a cantora na criação dos figurinos característicos das apresentações musicais de Letícia Persíles desde o Manacá.  Felizes coincidências...

       É isso, pessoal. Se você ficou com vontade de conhecer o disco, não hesite e vá logo atrás do seu. A gente se vê no post de terça-feira, aquele abraço!

Felipe Essy

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Rock À Todo Volume

     Ontem à noite eu e a Marcinha fomos ao Ocidente conferir o show de lançamento do novo clip da Lautmusik , “Tugboat”, financiado com sucesso pelos admiradores do grupo no site Catarse. Rodeada de amigos, a banda confirmou a qualidade gravada no disco “Lost in the Tropics” numa performance descontraída e empolgante que também antecipou canções de seu novo disco.


       Tudo começou com a criação do projeto de financiamento do videoclipe no Catarse, um site que veem se destacando como ferramenta para apoiar projetos como esse por pessoas como eu e você que acreditamos em uma ideia. A meta era arrecadar R$ 7.760 para produzir o clip de “Tugboat”, mas a banda conseguiu superar essa quantia em quase de mil reais. Isso é resultado da popularidade da Lautmusik tanto pela crítica especializada, quanto pelo publico dos bares de POA. A canção que originou o clip integra o disco “Lost in the Tropics”, lançado em 2011 após dois EPs, que inclusive concorreu ao prêmio Dynamite na categoria melhor álbum de rock e no Top 10 do Trama Virtual, mas “Tugboat” não é a primeira canção do disco a ser filmada: O clip de “Mai” agradou tanto que a Lautmusik foi convidada para abrir o show do The Cure no início de 2013, ou seja, podemos esperar bastante dessa nova produção assinada pela Baxada Nacional Filmes. Como diria o Chico, olha aí, meu guri:


       Como a Marcinha e eu chegamos um pouco cedo, nós pudemos ver o pessoal da Lautmusik passando um pouco do novo clip para testar o som e naqueles poucos segundos de exibição já dava para notar que ficou de primeira: Assim que o clip começou a passar no telão, não foi preciso dar qualquer aviso para que todos parassem de fazer oque estavam fazendo e irem até o telão assistir “Tugboat”.


       A primeira coisa que chama a atenção no clip dirigido por Filipe Barros é a fotografia assinada por Eduardo Rosa, explorando a profundidade e movimentos constantes, assim como o “Tugboat” (“rebocador” em português). Outra sacada da produção foi inserir um personagem visualmente sobrecarregado pelo tempo para evidenciar a metáfora de alguém que, da mesma forma que rebocador, carrega coisas muito maior do que ele:

“Small as I am
I can still drag you along
But only so far
But only so far

Let go of all resistance
And follow my lead
My strength lies in your acceptance
As soon as you dock, I will flee
And forever remember
That together we were mighty
That together we were mighty”

      Depois da exibição do clip o show começou sem cerimônias num clima descontraído, como um momento de curtição musical compartilhado com amigos e admiradores da banda. Talvez seja isso que nos faça simpatizar logo com a Lautmusik, pois mesmo não fazendo do show um espetáculo para assistir, também não ignorou o publico que foi lá conferir o lançamento do novo clip. Assim eu concluo dizendo que há mais para falar da Lautmusik do que eu poderia botar nesse post, então eu realmente aconselho você a descobrir a sua próxima banda favorita:



        O show de ontem foi o último antes de uma pausa nas atividades, pois a vocalista Alessandra Lehmen estará fora do país, mas já deixou os vocais do próximo disco gravados para a banda dar continuidade a produção do álbum. A Lautmusik tocou sete músicas novas no show e posso dizer que já esto esperando ansiosamente pelo disco. O meu muito obrigado à banda que gentilmente me atendeu e respondeu minhas perguntas e a todos um grande abraço!

Felipe Essy

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Trilhadores

       Buenas, pessoal! Desde quando eu escutava as canções dos desenhos que eu gostava em fita cassete, eu desenvolvi uma verdadeira paixão por trilhas de filmes, não somente pela qualidade da música em si, mas pela significação que ela adquire representando cenas e personagens de uma maneira que não vemos em gêneros mais populares. Eu resolvi então falar de alguns compositores de trilhas que eu gosto, confere aí!

JOHN WILLIAMS

       É impossível você não conhecer um dos famosos temas criados por Williams , seja a Marcha Imperial de Darth Vader ou a inconfundível canção de Indiana Jones. Com o passar dos anos, John Williams se revelou um talento surpreendentemente para criar temas marcantes para o cinema. Você poderia se surpreender com o número de músicas dele que você conhece e não sabia.


      As obras de John Williams se caracterizam por uma representação musical mais lúdica, utilizando efeitos que lembram imagens fantásticas e ou infantis, mas sem no entanto cair no caricato. Como exemplo recente disso eu posso citar a trilha de Harry Potter e a Pedra Filosofal, onde Williams constrói melodias que parecem representar a fascinação do menino bruxo que descobria Hogwarts. Nas trilhas de Star Wars nós podemos perceber alguns elementos recorrentes no trabalho de Williams, onde as canções ao mesmo tempo que trazem elementos de bandas militares aludindo ao conflito entre as duas forças da trama, também transmitem a fantasia dos novos mundos e culturas a toda hora apresentadas.


      Quase sempre Williams era chamado para fazer a trilha do primeiro filme de uma saga, sendo substituído depois por outros compositores que apenas faziam variações de seus temas originais, desde o Superman de 1978 até Harry Potter. Talvez a única excessão seja os filmes de George Lucas nos quais John Williams nunca foi substituído – e pelo o que somos gratos. Williams também fez algumas outras parcerias em filme de Steven Spielberg. Curiosamente, o único compositor a dirigir uma trilha para os filmes de Superman que não utilizou o tema consagrado de Williams é o próximo trilhador:


HANS ZIMMER

      Eu já falei dele algumas vezes aqui no blog e não é de hoje que eu admiro o trabalho dele. Hans Zimmer se destacou nos anos 80 por utilizar recursos eletrônicos para gerar sons peculiares em suas trilhas, até então criadas com instrumentos tradicionais da musica erudita. A assinatura musical de Zimmer é o uso de ruídos e barulhos como elementos melódicos nas canções, influenciando muitos trabalhos posteriores. Já faz quase trinta anos que Zimmer começou a trilhar esse caminho alternativo de composição no cinema, trazendo suas influências New Wave dos tempos de banda. Mesmo na atual era de acesso livre a informação, Zimmer continua a ser único em seu estilo de recriar ambientações sonoras das cenas que assistimos através de sons e melodias inusitadas.


      O uso de sintetizadores e recursos eletrônicos são a marca de Hans Zimmer, mas meus discos favoritos dele são na verdade de trilhas onde são utilizados instrumentos clássicos do gênero, pois Zimmer parece ter uma sensibilidade apurada sobre a melodia. Ao mesmo tempo que explora o experimentalismo típico dos anos 70, quando começou sua carreira musical, também contém traços cativantes da simplicidade da música popular. Acho que essa minha preferência se deve ao fato de que a primeira trilha que escutei repetidamente foi O Rei Leão, em que Zimmer criou canções instrumentais mixando elementos da música africana tradicional e popular às estruturas eruditas, construído representações musicais que exploram o sombrio dos vocais graves, assim como a alegria do canto em coro. Outro trabalho de Zimmer que eu gosto muito e se consagrou nas telas foi sua trilha para Piratas do Caribe e Homem-Aranha. Seu parceiro não creditado na criação dessa trilhas e outras como Código DaVinci, Henry Jackman, também se destacou em X-Men Primeira Classe utilizando ideias desenvolvidas nos trabalhos com Zimmer.


        Recentemente, Zimmer fez alguns discos de destaque mostrando que ainda é o principal nome na composição de trilhas com recursos eletrônicos. Embora eu tenha achado a trilha de Batman Dark Knight fraca em relação aos seus trabalhos anteriores, pois não é um disco que você escuta por si só, a trilha também mostrou um certo amadurecimento do compositor antecipando o que seria realizado mais tarde no incrível trabalho em O Homem de Aço. Nessa nova trilha, Zimmer não utilizou o tema original do Superman composta por John Williams e criou um novo conceito para acompanhar a nova concepção dos filmes do kryptoniano, mas não foi a primeira vez que Zimmer recriou trilhas consagradas de personagens de histórias em quadrinhos. A trilogia de Batman dirigida por Tim Burton no anos 90 contou com temas compostos por Danny Elfman, mas a proposta de Christopher Nolan para a nova produção pedia uma trilha mais sombria e urbana, um prato cheio para Zimmer, mas verdade seja dita: Não chegou aos pés do próximo compositor:


DANNY ELFMAN

     Alguns compositores de trilhas acabam desenvolvendo uma parceria com diretores em vários filmes, e assim como Tim Burton sempre escala Johnny Deep, Danny Elfman também já é carta marcada no baralho. Os exemplos são intermináveis: BeetlejuiceEdward Mãos de Tesoura, O Estranho Mundo de JackPlaneta dos Macacos, Charlie e por aí vai.

Tim Burton e Danny Elfman
     Enquanto John Williams explora o fantástico em suas trilhas, Elfman também trabalha com elementos lúdicos, mas sob perspectivas por vezes mais obscuras, como no tema de Batman para o filme de 1989. Embora a nova trilha de Zimmer para o cavaleiro das trevas tenha se adequado melhor a ideia explorada por Nolan, as canções da nova trilogia se tornaram meros planos de fundo para o clima sóbrio do herói, se tornando tão estéreis quanto alguns cenários. Já a trilha de Elfman cria temas fortes que as vezes parecem quase onomatopeias, com arranjos que lembram as quedas livres de Batman dos altos edifícios através de ascendências e cadencias que brincam com a nossa percepção. A trilha para o herói é tão marcante que ainda podemos reconhecer alguns temas das trilhas de Elfman no jogo Arkham City – falando nisso, jogos de computador são tão produzidos quanto um flime, contando com trilhas de verdade. A de Call of Duty 2: Modern Warfare, por exemplo, é assinada por Hans Zimmer.


HOWARD SHORE

    Junto com a paixão por Tolkien, a trilogia de Peter Jackson em O Senhor dos Anéis me presenteou com as trilhas de Howard Shore. Um dos poucos discos de trilha que se escuta do início ao fim como se fosse uma obra independente, esse disco cativou até mesmo aqueles que não estavam muito familiarizados com trilhas, nos fazendo lembrar de cada cena que assistimos no filme enquanto a escutamos. O trabalho de Shore foi de tamanho esmero que os versos entoados pelos coros utilizavam as línguas fictícias criadas por Tolkien. Tão frutífero foi sua participação no projeto de Peter Jackson que versões extendidas das trilhas foram lançadas, seguidas de várias releituras feitas posteriormente pelo próprio compositor.


     Na trilha do primeiro filme produzida para O Hobbit, Howard Shore criou um disco que faz inúmeras referências a temas das trilhas da trilogia original, auxiliando Peter Jackson na re-imersão do publico na Terra-Média depois do intervalo de dez anos. Sendo assim, nada se destacou mais que o canto entoado pelos anões em Misty Mountains, que deu vida a canção escrita por Tolkien no livro de uma forma que eu nunca imaginei que poderia ser.


       Recentemente, o trabalho de Shore que mais me chamou a atenção com certeza foi a trilha de A Invenção de Hugo Cabret. O filme homenageava os filmes que marcaram os primórdios do cinema através de uma narrativa ricamente visual, precisando assim de uma trilha que salientasse os sentimentos e expressões no silêncio de cada cena. O resultado foi um filme maravilhoso e uma trilha cativante como os filmes mudos.


     Eu poderia ficar aqui escrevendo por mais horas e horas sobre esse assunto que eu realmente adoro, mas o post tem que ir para o ar, então até quinta-feira e aquele abraço!

Felipe Essy