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sábado, 3 de janeiro de 2015

A História Entre os Cinco Exércitos



    Agora que mutos já assistiram ao Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, é a hora de explorar algumas lacunas e entender melhor por que algumas coisas mudaram no filme. O texto a seguir está repleto de revelações do enredo, então considere-se avisado.


O PODER DE GALADRIEL


     Enquanto os anões se debatem e exércitos avançam, Galadriel adentra Dol Guldur e confronta Sauron para resgatar Gandalf, mas a cena parece extrapolar um pouco os limites do personagem. Alguns elfos possuem naturalmente dons que nós chamaríamos de “mágica”, mas que não são nada surpreendentes entre eles. Essas habilidades especiais normalmente são apenas uma percepção sensível. No caso de Galadriel, ela é capaz de vislumbrar o futuro – ou probabilidades dele – e ler pensamentos de outras pessoas, mas nada que possa ser usado como uma arma para atacar, embora essas duas habilidades em si possam ser perturbadoras para alguns membros da sociedade do anel. O que poderia realmente conferir à Galadriel a capacidade de rechaçar o Senhor do Escuro é o Nenya, um dos três grandes anéis do poder.

      Assim como os outros anéis, o Nenya é capaz de apenas preservar e proteger o que é determinado por seu portador. Dessa forma Galadriel mantém Lothlórien oculta e imune da ação do tempo, mas nenhum deles pode ser utilizado como uma arma, pois foi Sauron quem ensinou os elfos a como forjá-los e jamais teria dado tal conhecimento contra seus próprios interesses, pois ele desejava controlar os portadores. No entanto percebemos que Galadriel não teme essa influência na cena de A Batalha dos Cinco Exércitos. Isso se dá pelo fato de que seu anel foi um dos três únicos a serem criados escondidos de Sauron e assim Galadriel é capaz de utilizá-lo para se proteger do próprio Senhor do Escurdo, como protege suas terras, mas não pode lhe causar nenhum dano, mas não se engane: Essa não foi a única vez que a rainha de Lórien entrou em uma batalha e ela era considerada fisicamente capaz de defender a si mesma entre os elfos homens.


SARUMAN E SAURON

   Na investida contra Dol Guldur, pode parecer estranho que ninguém suspeite do posicionamento pouco ofensivo de Saruman contra Sauron, afinal ele era o mago mais poderoso da sua ordem e com conhecimentos muito além de Galadriel, mas assim como os outros magos, ele foi enviado à Terra-Média com propósitos que o impediam de enfrentar Sauron diretamente.


    Saruman era um dos Maiar, espíritos logo abaixo dos Valar que governavam a terra. Após o desaparecimento de Sauron com a perda do Um Anel, os Valar enviaram cinco Maiar sob a forma humana para socorrer os povos desolados pela sombra de Mordor, no entanto estavam proibidos de governá-los, pois eles temiam que os magos pudessem corromper-se como Sauron e transformar a Terra-Média num enorme campo de batalha pelo poder. Por isso foram proibidos de enfrentá-lo diretamente, principalmente por que eles partilham a mesma essência

   Tanto os magos quanto Sauron eram Maiar e assim como os Valar não possuíam forma física – embora pudessem adotá-la sem nela habitar. Assim, Sauron era capaz de assumir vários formas: serpentes, lobisomens e até vampiros, mas sem estar mortalmente ligado a elas (Sauron teve várias formas destruídos ao longo de sua existência). Por outro lado, Saruman e os outros magos são Maiar enviados à Terra-Média sob formas humanas e susceptíveis a todas vulnerabilidades físicas e emocionais de um corpo mortal, logo também tiveram seus poderes limitados a essas condições, as quais Sauron não estava sujeito. Sendo assim, nem Saruman ou Gandalf poderiam derrotá-lo em um confronto direto.

   Embora Saruman já estivesse aliado a Sauron durante a expedição de Bilbo, teria sido interessante explorar sua associação com senhor do escuro ao longo dos três filmes, afinal sua corrupção está intimamente ligada aos anéis do poder e o crescente poder de Sauron, mas apesar de parecer uma aliança, Saruman jamais pretendeu unir-se a Sauron, e sim usá-lo para encontrar o Um Anel e usá-lo. De fato Saruman chega a criar seu próprio anel, que amplia o poder de manipulação de sua voz, no entanto assim que os servos de Sauron trazem uma das palantiri para Mordor, Sauron a usa para influenciar e manipular Saruman que, reduzido a forma humana, foi facilmente corrompido.


LEGOLAS E A IDA A GUNDABAD


   Enquanto Saruman é pouco aproveitado como elo entre as trilogias, Legolas é explorado a exaustão, mesmo depois de protagonizar o segundo filme mais que o necessário, no entanto a sua relação com o rei Thranduil acabou mostrando-se interessante na história. O que deixou os espectadores meio perdidos foi a expedição relâmpago que Legolas e Tauriel fazem à desolada região de Gundabad, aparentemente sem importância para o enredo, já que não entendemos bem por que as tropas de Azog se encontram lá. Na verdade, Gundabad era um antigo ponto estratégico de Sauron criado especialmente para se vingar de uma antiga desavença entre ele os anões de Moria.


   Quando Sauron planejou usar os elfos para forjar os anéis do poder, ele disfarçou-se como emissário dos Valar, oferecendo seus conhecimentos a Gil-Galad, senhor de Lindon, no entanto ele não acreditou em tais ofertas. Sauron então recorreu aos elfos artíficies de Eregion, nas Montanhas Sombrias próximo à Moria. Deslumbrados com as obras que poderiam criar com os conhecimentos de Sauron, eles o acolheram sem hesitar, ajudando a forjar os anéis do poder, mas Sauron acabou se revelando com a criação do Um Anel e os elfos de Eregion descobriram seus planos. Sauron então ataca Eregion e o rei Gil-Galad envia Elrond para conduzir os exércitos de Lindon em seu auxílio, mas Eregion é devastada e Elrond foge. Sauron o teria alcançado se não fosse pelos anões de Moria, que haviam se aproximado dos elfos daquela região. Eles recuaram para Moria, deixando Sauron impotente do lado de fora dos portões. Irado, mas incapaz de invadir Moria, ele mandou orcs ocuparem o monte no extremo norte das Montanhas Sombrias, Gundabad, a espera da oportunidade.


   Após muitas tentativas fracassadas de dominar o norte, Sauron concentra suas forças em Mordor, mas muitos orcs continuam em Gundabad, dentre eles o filho de Azog que anseia por vingança contra os anões do norte, pois no livro Azog foi morto anos antes por Dáin pé-de-ferro, o primo de Thorin que o socorre na Batalha dos Cinco Exércitos. Originalmente Dáin mata Azog contra a provocação que Azog fez ao avô de Thorin: O antigo rei Thrór estava desesperado após a destruição de Erebor, então ele decidiu partir para Moria onde acreditava que poderia encontrar a salvação para sua família, no entanto os orcs o decapitaram e entregaram a cabeça de Thrór aos anões com "AZOG" inscrito em sua testa, junto com algumas moedas enquanto o chamavam de mendigo. Os anões planejam sua resposta durante sete anos e vários clãs se unem em um grande ataque que varreu as Montanhas Sombrias em busca de Azog. Quando as tropas lideradas por Thráin, filho de Thrór, chega a Moria, ele descobre que Azog também os esperava com um exército. Os anões começavam a ficar em desvantagem quando chegam os reforços das Colinas de Ferro e retribuem a gentileza de Azog, cravando sua cabeça numa estaca com um saco de moedas em sua boca. 


A PEDRA ARKEN E O COLAR DE THRANDUIL


    Quando a famigerada batalha começa a se formar, a Pedra Arken volta a protagonizar a história. Apesar da aparência quase espacial, não há nada de sobrenatural nela, a não ser a crença dos ancestrais de Thorin de que a presença da pedra nos salões estava ligada à glória do reino de Erebor. Peter Jackson preferiu explorar um aspecto mais místico da pedra Arken, já que ela estava fortemente vinculada à ambição de Thorin, mas uma parte tão importante da trama acabou simplesmente esquecida no final do filme. Não vemos mais depois de Bard guardá-la sob seu manto nos portões de Erebor. Os leitores também sentiram falta de um dos momentos mais emocionantes do livro, quando a pedra é depositada sobre o peito de Thorin em seu enterro. No livro é dito que seu primo Dáin se torna o rei de Erebor, trazendo muitos de seu povo aos salões sob a montanha. Uma decima quarta parte da fortuna de Erebor é dada ao povo de Bard em cumprimento ao acordo que Thorin originalmente fez (no livro) com Bard em troca da pedra Arken, mas Bard o envia ao rei da Cidade do Lago, que morre fugindo com esse tesouro – e não o dos cidadãos da Cidade do Lago, como no filme.


    Uma outra joia esquecida no filme é o colar de gemas brancas que Thranduil se refere antes de partir para Erebor. Embora esse interesse apareça pouco nas versões exibidas no cinema, o colar tem destaque em uma cena estendida de Uma Jornada Inesperada. Nela, Bilbo conta a história de Erebor, em que Thranduil visita o rei Thrór na montanha para lhe prestar homenagem quando ele lhe oferta um baú em que Thranduil vê um brilhante colar de jóias. No momento em que o rei elfo se aproxima para tocá-lo, o baú é abruptamente fechado e Thranduil retira-se ofendido. Enquanto isso, Bilbo diz: “Não se sabe como começou. Os elfos dizem que os anões o roubaram. Os anões têm outra versão, de que os elfos não pagaram o preço justo.” Essa é uma referência clara a uma joia central na origem entre a discórdia dos elfos e anões, o Nauglamir. Isso alardeou vários fãs, pois inserir esse colar no enredo de O Hobbit interfere diretamente no livro mais importante da mitologia tolkieniena, O Silmarillion. Aparentemente Peter Jackson pensou duas vezes e mudou de ideia em A Batalha dos Cinco Exércitos, transformado o Nauglamir em um simples colar feito para a mulher de Thranduil, cujo interesse é exclusivamente emocional. Ainda assim, o colar desaparece na narrativa do último filme, assim como a pedra Arken. Talvez ambos apareçam na versão estendida, mas ainda sim me parece um deslise de roteiro.

    Esse colar que teria sido da mulher de Thranduil na verdade não existe nos livros, mas outra jóia sim: Após receber uma décima quarta parte do tesouro, Bard encontra o Colar de Girion, uma bela jóia composta de quinhentas esmeraldas. Ele o da para Thranduil como retribuição pela ajuda prestada após a destruição da Cidade do Lago. Vale lembra que Giron foi o ancestral de Bard que governara Dale antes da chegada de Smaug. Bilbo também foi recompensado com dois baús de ouro - devidamente aumentados pelas lendas do Condado.


Espero que vocês tenham gostado do post, ele acabou demorando mais do que o esperado, mas acho que valeu a pena, mas o filme não é o único assunto desta postagem: Hoje seria o 122º aniversário de Tolkien se ele estivesse vivo - de dar inveja até a Bilbo, e deixo aqui um trecho de Frankenstein que me lembrou dele:

"Teria essa mente, tão permeada de ideias, maravilhosas e magníficas fantasias, que formaram um mundo, cuja existência dependia da vida de seu criador - teria essa mente perecido? Isso agora só existe na minha memória? Não, não é assim; Sua forma moldada tão divinamente, e iluminada pela beleza, tem decaído, mas seu espírito ainda visita e consola este singelo amigo."

- Mary Shelley

Parabéns, professor!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O Fracasso dos Cinco Exércitos


    Após o desfecho épico de O Retorno do Rei, houve rumores de uma adaptação de O Hobbit, mas era algo tão distante que ninguém acreditou que pudesse mesmo acontecer. Quase dez anos depois, eu vibrei assistindo ao primeiro trailer, mas o filme acabou não sendo bem o que eu esperava. Mesmo após uma sequência que me agradou menos, eu ainda acreditava que o último filme salvasse a trilogia, mas tudo acabou destruído em uma interminável Batalha dos Cinco Exércitos.

   Quem conhece os filmes que eu assisto, sabe que eu sou um espectador bem paciente, mas o último Hobbit conseguiu extrapolar todos os meus limites. Foi sem dúvida o pior filme que eu já vi na minha vida. Não como uma adaptação, nem como um sucessor de O Senhor dos Anéis, mas como um filme em si. Sequências de ação intermináveis, justapostas por diálogos fracos que não adicionavam nada a história, a não ser novas batalhas que pareciam mais uma exibição de malabaristas. Sinceramente, eu não teria reconhecido a direção de Peter Jackson se o crédito não estivesse estampado na tela, e o que era para ser uma prequela de um dos filmes mais marcantes do cinema se transformou em algo completamente irreconhecível.


    A trilogia original desafiou os parâmetros tradicionais de Hollywood, narrando uma história complexa em um mundo fantástico sob uma perspectiva séria, quase cinzenta, enquanto O Hobbit retrata um mundo colorido, onde magos ofuscam a tela com conjurações fluorescentes e elfos derrotam exércitos com piruetas. O Senhor dos Anéis e O Hobbit são livros com propostas diferentes, mas como uma sequência da produção anterior, era necessário que essa nova trilogia se conectasse com a adaptação original, não apenas através de referências e cenários familiares, mas com a mesma profundidade de roteiro e conceito estético. Apesar da impressionante qualidade técnica, o excesso de efeitos computadorizados resultou em algo artificial demais para não infantilizar o filme, exatamente como o próprio Peter Jackson afirmou evitar em A Sociedade do Anel

   No fim das contas, acho que Peter Jackson quis se superar outra vez, ousando com novas tecnologias – que sempre foram uma paixão sua, mas provavelmente exigiu tanta atenção que o mérito do roteiro conquistado na trilogia original acabou esquecido. Três filmes para adaptar um livro foi exagero, mas quem conhece o universo de Tolkien sabe que havia muita coisa para preencher todo esse espaço. O que aconteceu com os anéis do poder dos elfos, a natureza dos magos, Angmar e o declínio de Gondor. Inúmeras possibilidades de não apenas entrelaçar a franquia, mas explicar vários elementos importantes para um melhor entendimento da Guerra do Anel. A trilogia de O Hobbit acabou apenas esticando o livro em três partes sem adicionar alguma coisa que justificasse tudo isso.


   Coisa de fã saudoso? Talvez. Há quem tenha gostado do filme, mas de qualquer forma é pouco provável – para não dizer impossível – que uma nova adaptação dos livros de Tolkien seja feita. Não é por falta de vontade dos estúdios, mas o herdeiro responsável pelo legado de Tolkien, seu filho Christopher, detesta os filmes. Todos. Se o próprio Tolkien não tivesse vendido os direitos em vida, é provável que jamais víssemos qualquer um deles no cinema. E nesse caso nem o dinheiro de Hollywood poderia resolver o problema, pois Christopher Tolkien já deixou de falar com o próprio filho só por que ele elogiou a adaptação de O Senhor dos Anéis. Pessoalmente eu não me interesso em ver outra adaptação de Tolkien nos cinemas. Eu amei O Senhor dos Anéis, O Hobbit teve sua oportunidade e assim a narrativa da Guerra do Anel foi finalmente concluída. A verdadeira Terra-Média só existe nos livros e eles existem justamente para mergulharmos nesse universo. Enquanto isso, Hollywood terá que procurar outro anel do poder para se esconder, por que algo me diz que ele se perdeu de vez.


   No próximo post, iremos explorar melhor alguns detalhes da história de "A Batalha dos Cinco Exércitos" e explicar algumas curiosidades. Até a próxima!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Tour pela Terra-Média


    Buenas, pessoal! Dois anos após a Terra-Média voltar aos cinemas, a jornada de O Hobbit finalmente chega ao fim. Como de costume, o blog traz algumas publicações especiais sobre essa obra, e como já faz um ano desde A Desolação de Smaug, nada melhor que dar uma refrescada na memória. Confira uma seleção das publicações já feitas no blog sobre O Hobbit e O Senhor dos Anéis para entender melhor esse universo:


CURIOSIDADES



    A intriga entre as duas raças vai muito além de Erebor e a Floresta das Trevas, com origens tão intrincadas que é difícil determinar quem começou, no entanto as inscrições em élfico nos portões de Moria indicam que nem sempre foi - assim antes que algo acontecesse. Clique na imagem acima e descubra essa história.



    Aqui temos respostas para algumas coisas nos filmes e até mesmo nos livros que nem sempre são explicadas. Afinal, porque Sauron escava tanto? Por que só os Elfos podem ir para as Terras Imortais? Que lugar é esse, aliás? E por aí vai.



   Na segunda parte do post, descobrimos qual é a ligação entre a comitiva dos anões e a Sociedade do Anel, a origem das aranhas Gigantes e por que a Floresta das Trevas tem esse nome.



EXPLORANDO O HOBBIT


    Nesse post sobre o primeiro filme, nos aprofundamos um pouco mais no universo introduzido por Peter Jackson, falando mais do Conselho Branco, dos Magos e do sumiço de Radagast em O Senhor dos Anéis.


     A preocupação de Gandalf com a fortaleza de Dol Guldur ganha mais detalhes aqui, revelando as suas consequências na Guerra do Anel.


     No post dedicado ao segundo filme, falamos mais de Beorn, o troca-peles; As Aranhas Gigantes na Floresta das Trevas; Os Elfos Selvagens; Smaug e outros Dragões.


TRILHANDO A TRILOGIA DO ANEL

   Nesta série de posts, a primeira trilogia dirigida por Peter Jackson é explorada nos mínimos detalhes, preenchendo lacunas, explicando referências e revelando alguns deslizes. Neles você entenderá melhor alguns elementos e citações dos filmes, além de respostas para dúvidas que assolam até mesmo os mais familiarizados com os livros. De quebra ainda há um glossário no fim de cada post para você não se perder.



     Entenda um pouco melhor a origem do Um Anel e dos outros anéis do poder. Por que Aragorn é um guardião e algumas relações com o Hobbit no Conselho de Elrond.



    Continue a trilha pela Sociedade do Anel explorando a origem de Moria, por que só há um Balrog e como ele parou lá, além de entender um pouco mais sobre o espelho de Galadriel.



    Comece entendendo o título - que nem o próprio Tolkien tinha certeza quando escolheu - e conheça mais das outras torres citadas no filme. Conheça a história completa entre a queda de Gandalf na ponte de Khazad-dûm e seu retorno como "o Branco", além da origem de Rohan e da criação dos Orcs e Uruk-Hai.



    Aqui temos informações importantes para entender o desfecho em O Retorno do Rei: Quem são os Homens que apoiam Sauron, por que os Elfos socorrem Rohan e não Gondor, além do resultado do placar entre Legolas e Gimli na batalha de Helm.



    Se você não leu os livros ou não assistiu as versões estendidas, é uma boa oportunidade de saber o fim de Saruman ou entender o papel das Palantíri em O Senhor dos Anéis, o que era Minas Morgul antes de ser tomada pelas forças de Sauron ou de onde veio Laracna.



     Em um filme chamado "O Retorno do Rei", não é bem explicado por que Aragorn estava exilado. Eis uma chance de descobrir e entender a influência de Isildur nessa história. O retorno de Aragorn encerra o chamado "Declínio de Gondor", que também é contado aqui, como a origem do reino e seu símbolo, a Árvore Branca.

Semana que vem tem material novo sobre Tolkien e O Hobbit, um abraço!

Felipe Essy

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Da Capital à Hogwarts

    Buenas, pessoal! Pouco mais de uma semana após o Encontro de Sagas, consegui retomar o fôlego para falar um pouco de como tudo aconteceu e compartilhar essa grande experiência. Confere aí!


    A ideia surgiu ano passado entre alguns amigos que estudavam juntos, mas conforme o projeto foi exigindo mais dedicação, um a um foram deixando a iniciativa até que apenas um deles ainda cogitasse realizar o Encontro de Sagas. Foi nesse momento que eu entrei em contato com a Andrea, que ponderava se ainda iria realizar o projeto.  Conforme conversamos, as ideias ganharam fôlego e decidimos arregaçar as magas para tentar fazer o melhor possível com o pouco tempo e recursos que tínhamos. Com a colaboração de alguns amigos que também aceitaram entrar na empreitada, Márcia Peixoto e Neidson Souza, demos início aos preparativos do Encontro de Sagas.

   Não tínhamos a menor ideia do que iria acontecer. Muita gente estava empolgada com a ideia, mas sempre fica aquele receio: será que alguém vai aparecer? Para ajudar, não conseguimos folders próprios para divulgação e o jeito foi ir nas escolas de ensino médio sala por sala falar um pouco do evento. No fim apareceram várias pessoas, não uma multidão, mas um número que nos deixou satisfeito principalmente pelo envolvimento de quem participou. O mais legal foi ver que as mesmas pessoas voltavam e muitas vezes participaram de todas as atividades durante o dia. Assim além de realizar um sonho, fizemos novos amigos

Andrea Souza durante os preparativos do Encontro de Sagas
     As competições de sagas se mostraram super divertidas, como todos correndo de uma lado para o outro, quando não se atracavam para vem quem levava uma bandeira. Os desavisados que observavam aqueles adolescentes correndo desesperados de uma lado a outro do parque Tedesco ficavam intrigados, o que tornou tudo ainda mais engraçado. Obviamente teve gente de fora que não entendeu a brincadeira, mas basta dizer que houve escolas nos procurando para realizar as competições nas suas dependências e não é todo dia que esses convites acontecem.

   Quando eu planejei a oficina de cerveja amanteigada, eu não imaginei que excesso de participantes seria um problema, mas conforme o pessoal foi sabendo da ideia, comecei a cogitar fazer grandes quantidades. Várias pessoas de idades diferentes apareceram e riram bastante das minhas discussões sobre meias com a Andrea, o que disfarçou um pouco meu nervosismo. O importante foi que deu tudo certo, nos divertimos e todos puderam provar um bom copo de cerveja amanteigada direto do Três Vassouras.

Neidson Souza e Márcia Peixoto no bate-papo sobre Harry Potter.
   Os bate-papos foram sem dúvida o melhor momento do Encontro de Sagas, pois foi onde pudemos conhecer outras pessoas da nossa cidade que gostam desse assunto e trocar ideias. Discussões sobre fatos intrigantes das tramas e da simbologia nos livros renderam muito mais do que o esperado e mesmo após o anuncio do término do bate-papo, muitos continuaram ali a conversar com a gente. Foi realmente incrível e reunindo um pequeno grupo que ali estava, formamos uma equipe para discutir e organizar o evento do ano que vem. Muitas ideias pipocando e entusiasmo de todos os lados, o que de longe foi o melhor resultado dessa singela realização.

   Agradecemos imensamente o envolvimento de todos que estiveram ao nosso lado nesse Encontro de Sagas: Primeiramente à Andrea Souza, que nunca abandonou a ideia e se dedicou completamente ao projeto; Ao Maurício da La Mancha que apesar da correria, foi o mais prestativo possível; À Miriam que nos auxiliou no Qorpo Santo; Ao nosso amigo Neidson que aceitou se aventurar num bate-papo de Harry-Potter; À minha mulher Marcinha que além de fazer uma incrível fala sobre Jogos Vorazes, também me auxiliou na correria da organização; E claro a todos participantes do Encontro de Sagas. Foram dias maravilhosos, obrigado pessoal.

Felipe Essy

domingo, 17 de agosto de 2014

Cerveja Amanteigada


     Buenas, pessoal! Depois do sucesso do Encontro de Sagas, trago ao blog a receita da famosa bebida dos livros de Harry Potter, a cerveja amanteigada, que produzimos em duas oficinas durante o evento. Além de divertida, é uma receita muito simples e barata. Então pegue a varinha e aproveite!

    Se tratando de uma receita fictícia, é difícil  superar as expectativas, principalmente quando falamos de uma saga tão querida, mas eu fiquei bem satisfeito com nossos resultados. Embora não seja dito explicitamente que a bebida possuí álcool, fica entendido que haveria uma suave quantidade na bebida que embriagava elfos, mas não chegava a afetar os humanos. Pesquisando um pouco descobri que a bebida é inspirada numa receita britânica real de 1588, feita de açúcar, ovos, açúcar, nozes, cravos e manteiga, é claro. Apesar disso, resolvi procurar uma receita que não utilizasse álcool para que qualquer um pudesse participar da oficina - inclusive uma mocinha de cachinhos pretos muito simpática. Dentre muitas variações que incluíam creme de leita, sorvete e outras coisas que prometiam um ataque aos diabéticos, encontrei essa receita que deu super certo.

Para uma quantia que garanta quatro copos, você vai precisar de:

1 xícara de açúcar mascavo;
4 colheres de água;
4 colheres de essência de baunilha;
100 gramas de manteiga sem sal;
suco de 1 limão;
uma pitada de sal;
1,5 de água com gás

    Adicione o açúcar mascavo em uma panela pequena com as quatro colheres de água. Cozinhe até borbulhar, então coloque a manteiga. Não substitua por margarina, pois além do sabor, a manteiga também dá cor e consistência à bebida. Para contrastar o doce, adicione o suco de limão e uma pitada de sal. Por último, adicione quatro colheres de essência de baunilha e deixe esfriar, mas não espere demais se não o caldo irá endurecer. Para servir, coloque quatro colheres do preparo por copo e adicione água com gás. Mexa antes de beber para formar a espuma e aproveite! Para deixar a bebida mais doce, apenas adicione mais açúcar mascavo, mas cuide na dose, pois a menor adição faz muita diferença.
Espero que experimentem e tenham gostado, um abraço!

Felipe Essy



domingo, 27 de julho de 2014

Lançamento do Prosa na Varanda 2

    Buenas, pessoal! O Prosa na Varanda mais uma vez mostrou-se um projeto bem sucedido, tanto pela produção do livro, quanto pela recepção de público. Saiba como foi o lançamento no post de hoje.


    O livro Prosa na Varanda foi uma iniciativa do Grêmio Literário que, após a 24ª edição da antologia poética Poesia na Praça, buscava expandir suas atividades literárias para crônicas. Bem sucedida, a nova edição trouxe um outro gênero ao projeto, o conto. Aliás muito bem explorado pelos escritores que conseguiam desenvolver consideravelmente o potencial presente na publicação anterior.Saiba como foi o lançamento do livro no post de hoje:

   Apesar da chuva que ameaçava prejudicar o evento, uma boa quantidade de pessoas circularam pelo Qorpo Santo na última quinta-feira, mostrando mais uma vez que Santo Antônio da Patrulha é uma cidade onde a nossa literatura é apreciada tanto por quem produz quanto por quem consome, pois antes mesmo que o evento fosse iniciado às 19:00, autógrafos já eram pedidos e não cessaram mais de duas horas depois. Além disso muitos foram os convidados que, não podendo comparecer, reservaram seus exemplares, o que mostra que há um notável interesse de nossos conterrâneos pelo trabalho de artistas locais, até mesmo das pessoas mais inesperadas:

A generosa leitora Fernanda Lauck e eu.
   Antes de iniciarmos a sessão de autógrafos, a responsável pela venda dos livros tentava explicar para uma menininha de seis anos que suas moedas não eram o suficiente para comprar o livro. A menina era Fernanda Lauck, filha de uma das escritoras participantes, Elaine Lauck, e não percebendo que levaria vários livros para casa, decidiu ir à mesa dos escritores e dar uma moeda para cada um já que não podia comprar seu próprio livro com elas. Encantados com a generosidade da menina, tentamos a todo custo devolver a contribuição, mas Fernanda foi irredutível e não aceitou. Eu fiz questão de guardar a minha e tirar uma foto para lembrar dessa pequena leitora.

   Toda alegria deste dia, no entanto, não foi o suficiente para esquecer a falta do colega Nelson Osíris, falecido pouco depois de sua participação na primeira edição do Prosa. Ele inclusive era o mais excitado com a continuidade do projeto e, além da dedicatória no livro, sua importância não pode deixar de ser citada na abertura do evento pelo presidente do Grêmio Literário, Maurício Collar. Ao mesmo tempo que sua criticidade inteligente era polêmica, o carinho com que tratava os amigos cativou seus colegas de Grêmio e certamente estará sempre presente nas ideias que construímos juntos como esse livro, mas ainda que Nelson não estivesse na mesa de autógrafos, muitos foram os amigos presentes, alguns deles contribuindo significantemente para o livro de maneira extra-literária:

O tecladista Diogo Barcelos, acompanhado da voz de Claire Wincke.
  O escritor e médico pediatra Silvano Marques nos entrevistou colhendo depoimentos sobre nossa experiência com a publicação, da mesma forma que fez no ano passado. Diogo Barcelos e Claire Wincke emprestaram seus talentos musicais para entreter o público enquanto a sessão de autógrafos acontecia. Além disso outras pessoas envolvidas na produção do livro estavam presentes: o mestre em literatura Eduardo Jablonski, responsável pela revisão do livro e o ilustrador Gustavo Vargas, que criou a belíssima capa das duas edições.

     Para quem não pode comparecer no lançamento, os livros estarão sendo vendidos na livraria La Mancha ou também diretamente com os autores. Quem estiver interessado em adquirir o seu, pode entrar em contato comigo pelo e-mail blogfelipeessy@hotmail.com. Nos vemos no post de terça-feira, um abraço!

Felipe Essy

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Triste Vencedor



  Um dia de repente acordei feliz. Não, eu não estava feliz, eu era feliz. Fiquei assustado, será que era normal? As pessoas ficam felizes assim? Não tem um transtorno psicológico com um nome para isso? Aquilo começou a me preocupar.

   Um homem é guiado pelo desejo de felicidade, então para onde ele iria se já fosse feliz? O que ainda resta para fazer se você já está satisfeito com tudo que tem? Teoricamente nada. Então comecei a me perguntar como eu viveria sem a insatisfação. Viveria acomodado aceitando o que me dessem? Ora, claro que não, pois vocação para hippie eu nunca tive. Foi então que percebi a coisa mais importante que perdi com a felicidade: o medo.

    Felizes nós deixamos de temer o passado e de nos preocupar com o futuro, a única coisa da qual temos medo é o de não sermos mais felizes, mas nem isso eu tinha, pois a felicidade já estava me incomodando. Como alguém poderia viver sem o medo? O medo me dizia o que não fazer, era o meu pai, o reverendo que me mandava ter juízo. E agora, o que eu faço sem ele? Então fiquei desolado ao perceber que não era mais um homem, pois uma pessoa é moldada pelas coisas que é incapaz de fazer, e o que faria se pudesse fazer tudo? Provavelmente não saberia o que fazer – e eu realmente não sabia.

    Desolado percebi que tinha enlouquecido. Não acreditava que qualquer terapia ou narcótico pudesse dar conta de tal mal, essa falta do vazio. Então cai em profunda tristeza por não ter o que chorar, atingindo o ponto inevitável para um homem em que o túmulo se torna um berço desejável, onde o corpo deitará e a alma terá sua calma devolvida, só que nem a morte me parecia mais tão boa assim, pois era justamente dessa paz que eu queria me livrar!

   Foi aí que eu me dei conta que estava com o pior dos males, o medo de temer! A ameaça invisível, o invasor que se espera no silêncio escuro e não se sabe de que lado vai vir. Novamente eu tinha medo! Feliz de mim que não era mais feliz! Soltei um suspiro terrivelmente aliviado. Que bom era não ser mais despreocupado, eu tinha enfim algo para me ocupar o vazio do peito deixado pela felicidade que não me foi suficiente. E assim, deitei minha cabeça no travesseiro sorrindo os pesadelos que teria.



Essa crônica foi mais um texto extraído do livro Prosa na Varanda do ano passado. Quinta-feira, dia 24 será o lançamento, às 19:00 horas no Qorpo Santo. Espero vocês lá, um abraço!

Felipe Essy

domingo, 6 de julho de 2014

A Flor

  “Flores nascem até no cemitério”, dizia meu pai. Se eu conseguisse falar, essas palavras teriam sido perfeitas para o seu funeral, mas sinceramente eu não entendia aquele otimismo inesgotável. Parecia haver uma música no ritmo do relógio que despertava seu bom humor sem que ninguém mais conseguisse escutar.


   Quando me levava ao museu onde trabalhava, meu pai sempre dizia: “se a gente parar e olhar o passado, percebemos que o tempo é um escritor caprichoso, pois o que parece uma tragédia pode ser indispensável para um milagre.” Talvez, mas me pergunto se ele ainda pensaria o mesmo naquele momento.

    O baque da terra na tampa do caixão me acordou e olhei em volta. Minhas tias de longe, meus primos que eu não sabia o nome, um monte de gente que eu não via há anos. Por que a súbita saudade, eu questionava em silêncio. De repente percebi que meu olhar pousava sobre minha tia Clarice e desviei rapidamente. Meu pai e tia Clara, como a chamavam, eram brigados. Não sei bem como começou, mas terminou mal. Era sempre constrangedor quando nos encontrávamos. Não cheguei a conhecer os filhos dela, acho que tem dois... A cerimônia terminou e todos ficaram ali conversando, atualizando suas informações familiares e eu que me sentia sobrando mais do que nunca fui dar um passeio pela ala das gavetas.

    Perto do túmulo da minha avó estava uma moça. Sorri, cumprimentando-a. Ela retribuiu e voltou a olhar uma das gavetas. Percebendo que se tratava de parentes meus, perguntei:

    “- Seus parentes também?”

    “- Sim.” Disse ela. “- Pelo menos é o que me dizem.” Rimos sinceramente. Um assunto ligou o outro e quando vi estávamos conversando animadamente. Nem parecia mais um velório. Não sei por que não me senti culpado na hora, mas parecia que aquilo tinha acontecido. Tínhamos nos afastado um pouco das gavetas, quando de repente tia Clara apareceu e disse seca: “-Vamos, filha. Temos muita estrada ainda.” A moça me olhou e falou:

    “ - Ah, me esqueci disso. Põe essa flor no túmulo da vó para mim? Brigado seu... ?”

   “ – Rodrigo. Ponho sim. ” Forcei um sorriso. Notei o embaraço no olhar dela para tia Clara. Fez um aceno e foi embora. Eu fiquei ali olhando para a flor e pensei:

    “As flores nascem até no cemitério.”



   Essa é uma das minhas histórias do livro "Prosa na Varanda" lançado ano passado e estarei postando algumas delas aos domingos para comemorar a publicação da segunda edição. O "Prosa na Varanda 2" contará com crônicas e contos de vários autores, oito assinados por mim. O lançamento será no próximo dia 24, às 19:00 horas no Qorpo Santo. Espero todos vocês lá! Um abraço.

Felipe Essy

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Mais Perto da Capital

    Recentemente um teaser de A Esperança Parte I foi divulgado no site The Capitol,criado como se fosse um meio de comunicação da Capital com os distritos, mesclando ficção e realidade. Essa presença da Capital no mundo real surgiu como uma linha de esmaltes "assinada" pelo personagem Cina durante a campanha promocional de Jogos Vorazes. A ideia cresceu no segundo filme com um site de moda das tendencias da Capital com estilistas renomados, mas essa brincadeira está tomando proporções cada vez maiores e questionáveis.


    Como bem sabemos, a Capital no livro representa o contraste de uma cultura urbana consumista alienada aos custos do seus altos padrões de vida aos demais. O diretor Gary Ross adaptou isso muito bem para as telas, investindo no contraste de cores e extravagância da Capital com a palidez dos outros distritos, no entanto enquanto a produção do filme reafirma a ideia da escritora Suzanne Collins, as campanhas publicitárias exploram uma outra via perigosa.

   Antes que o primeiro filme da franquia fosse sequer lançado, o anúncio de que uma linha de esmalte inspirada na saga seria produzida causou uma grande polêmica, tendo em vista a contradição entre história e campanha publicitária, mas a equipe responsável pelo projeto não desistiu e solucionou o problema batizando-a Cina Glaze "Colors from the Capitol", utilizando-se de um personagem querido pelos leitores e associando a uma iniciativa típica da Capital.


    O problema é que isso não parou por aí: Quando Em Chamas chegou aos cinemas, a história tomou uma proporção muito maior: Um site inteiro foi criado para hospedar toda uma iniciativa voltada para a moda inspirada na Capital, o Capitol Couture (Moda Capital), incluindo contribuições de grandes estilistas da casa Dior e Alexander McQueen,  além de vários ensaios fotográficos e textos voltados às "novas tendências". Tamanho investimento tornou o Capitol Couture um verdadeiro canal de moda luxuoso, incentivando o consumo criticado nos livros.

    Isso tudo poderia ser apenas uma brincadeira se não mexesse com conflitos reais da nossa sociedade, pois mostra a linha tênue entre nós e aqueles cidadãos que se divertem com 24 jovens se matando num programa de televisão. A Esperança é meu livro preferido dos três justamente por não ser sobre a queda da Capital, mas da construção de "Capitais" e nós somos partes tão ativas nesse processo quanto os Idealizadores dos jogos, pois consumimos o produto desse processo. Agora temos o site oficial da Capital, outra "brincadeira" promocional da campanha publicitária da franquia, onde podemos nos cadastrar, fazer parte de um distrito e ajudar a Capital da nossa amada Panem. Não que eu leve isso a sério, mas lembrando do filme A Onda, em que um professor realiza um experimento formando um movimento fascista dentro da sala de aula, é de se pensar que as capitais ditatoriais que abominamos dos livros de história não estão tão longe da nossa realidade.

Felipe Essy

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Malévola e a Fragilidade das Histórias Infantis

      O tom sombrio da nova produção Disney impressiona quem lembra dos desenhos clássicos do estúdio, principalmente se pensarmos no tom romântico de A Bela Adormecida que inspirou Malévola. Aos poucos vemos vários estereótipos dos contos de fadas (que a própria Disney ajudou a perpetuar) serem abandonados como a princesa indefesa que não desfalece à espera de seu salvador (Enrolados), a menina que não precisa se casar para ter um final feliz (Valente) ou mesmo que o amor verdadeiro não vem de uma paixão à primeira vista (Frozen), mas Malévola traz um questionamento sobre as próprias histórias infantis.


   Antes de pensarmos nas ideias presentes em Malévola, vem o inevitável questionamento sobre sua justificativa na alteração do clássico original. Por que reescrever a história ao invés de adaptá-la como nos livros? Bem, talvez vocês se surpreenda em saber que a versão que você conhece também é uma releitura - e não é a única. A história de uma princesa amaldiçoada por uma fada que não é convidada ao batizado e despertada por um belo príncipe foi primeiramente publicada pelos irmãos Grimm como Dornröschen numa tentativa de resgatar e preservar o folclore alemão, no entanto ela é uma variação da fábula  La Belle au bois Dormant de duas partes escrita pelo francês Charles Perrault que por sua vez é uma releitura de um conto de fadas italiano "Sole, Luna, e Talia", muito provavelmente baseado em outras histórias, pois tanto A Bela Adormecida quanto outros contos de fadas eram inicialmente narrativas orais, readaptadas toda vez que eram contadas num contexto diferente, gerando inúmeras versões e isso foi um fator crucial para elas sobreviverem até o momento em que foram publicadas.


     Uma história somente sobrevive na memória popular a  medida que ela tem algum valor para as pessoas, se as ideias dela significam algo naquele contexto e a narrativa oral fazia essa adaptação automaticamente, no entanto assim que esses contos de fada foram publicados, eles tornaram-se estáticos e foram aos poucos se distanciando das pessoas que já não viviam nem pensavam como no século XVII. Mesmo assim a Disney pode explorar o imaginário infantil ainda muito romântico graças a influência francesa até o anos 60 quando o pensamento americano começou a se popularizar. Aquela imagem da mulher frágil em histórias envolvendo nobres em seus grandes castelos já não seduzia mais os jovens que começavam a produzir uma cultura urbana que contestava padrões de sexualidade e comportamento. Aos poucos a Disney percebeu que o modelo dos clássicos não atraía mais, seu público havia amadurecido muito com a televisão e certas coisas eram infantis demais até mesmo para uma criança. O próprio formato de desenho animado se tornou obsoleto depois do sucesso de animações de comédia como Shrek e poderia  ter sido o fim do que consagrou a Disney.

    As animações computadorizadas de comédia repetiram tanto a fórmula do ogro satirizando os contos de fada que rapidamente saturaram o público que já não se surpreendia em personagens ridicularizando coisas que todos já haviam entendido que não faziam sentido nas antigas histórias. Foi então que pouco a pouco, a Disney passou a produzir animações com o mesmo padrão estético característico de seus desenhos, mas mostrando personagens mais maduros e independentes que os protagonistas dos clássicos do estúdio, representando muito mais aquele novo publico. Assim chegamos à Malévola, uma releitura inteligente que mostra que o modelo de protagonista hollywoodiano que reprisamos nas novelas é tão fraco que é necessário explorar o vilão, naturalmente dotado de conflitos dramáticos na sociedade em que não se adapta.


    Apesar de Malévola ter vários elementos fantásticos e não mostrar a protagonista como uma criatura adoradora das trevas (diferentemente do desenho de 1959) para que o público se sentisse confortável em se aproximar do personagem de Angelina Jolie, a história de Malévola contada paralelamente a de Aurora (a bela adormecida) explora uma história de amor trágica e cheia de conflitos sem jamais abandonar a profundidade do problema e esse é sem dúvida o grande mérito do filme. Um conto de fadas amadurecido para um publico infantil que já cresce aprendendo a não ser criança. Essa abordagem pode fazer com que muitos pensem em Malévola como um filme um tanto pesado para crianças, mas o mesmo se disse de O Rei Leão em 1994 e hoje ninguém liga para isso. Somos nós que ainda não aceitamos completamente essa nova infância e se quisermos ter algo de valor para ensinar para eles, é melhor amadurecermos também.

Felipe Essy

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A Arte Vive na Cidade

    Buenas, pessoal! Vendo o espaço Qorpo Santo lotado até as escadas para a assistir a encenação de O Auto da Compadecida pela companhia Cogumelos Azuis semana passada, não pude deixar de perceber o verdadeiro espetáculo que acontecia naquele momento: a arte em movimento na cidade e é sobre isso que o blog divaga hoje.

Companhia Cogumelos Azuis ao fim do espetáculo "O Auto da Compadecida".
    Ser artista em Santo Antônio nunca foi fácil. Além das dificuldades de falta de recursos e incentivo comum à profissão, sempre foi difícil encontrar lugares para divulgar seu trabalho e atrair público - quando havia. Esse ciclo vicioso acabava por sepultar diversas iniciativas com alto potencial antes que elas se desenvolvessem completamente, mas isso parece estar mudando graças a iniciativas para desenvolver a produção cultural na cidade e o estreitamento entre artista e público.

   O teatro, por exemplo, se renovou em Santo Antônio através do trabalho desenvolvido em oficinas escolares com alunos do ensino-médio, seduzidos pela arte dramática que não apenas originou novas companhias, mas promoveu um intercâmbio de experiências entre os atores mais velhos e os iniciantes que aos poucos está criando uma cena artística (para não dizer "cena cênica") no município, mas outro fator também foi decisivo para que o sucesso da peça de O Auto da Compadecida acontecesse: comunicação.

     Mesmo artistas excelentes podem ter problemas se não tiverem uma demanda pelo seu trabalho, mas há algum tempo as pessoas descobriram como a comunicação instantânea e direta pode resolver isso. Você já deve ter ponderado se ia ou não em algum lugar dependendo se mais pessoas fossem também, e muita gente acaba não indo num show ou exposição por esse motivo. Não basta um cartaz ou mesmo um amigo seu te convidar, você tem que ter certeza de que outras pessoas também irão, mesmo que não seja para vê-las. É dessa forma que cada vez mais o Facebook anda servindo como ferramenta de movimentação de público, onde artistas convidam para a apresentação e amigos ajudam a incentivar outras pessoas a conhecê-los. Assim nossa arte aos poucos vai se organizando e desenvolvendo num novo ciclo: o incentivo virtual, a realização prática seguida de novos incentivos. O que era o problema tornou-se a solução. A pergunta que fica é se esse fenômeno está acontecendo só com o teatro, ou com outras artes também: sim e não.

Banda Percivais, agitando a cena local há dez anos.
    A música sempre foi algo muito forte entre adolescentes e não apenas aqui. Com a internet muito mais acessível do que era um tempo atrás, discografias inteiras ficaram ao um click de distância e a aproximação de pessoas com os mesmos gostos musicais se tornou muito mais fácil, no entanto esse consumo individual não parece estar beneficiando muito os artistas locais, pois a falta de espaço para atuarem - e às vezes até hostilidade contra seu estilo musical - desestimula as bandas a saírem da garagem e os sub-gêneros, por menor que sejam, costumam afastar adeptos de diferentes vertentes de um mesmo estilo, enfraquecendo a classe como um todo. Falta uma iniciativa de artistas locais mais experientes ou até mesmo de entidades e secretarias para orientar e estimular esses novos músicos, ajudando a fomentar uma cena musical sólida.

   A literatura é um caso diferente, pois o consumo das obras não conta com o envolvimento do artista que as criou e normalmente são apreciadas de uma forma mais particular, mesmo assim precisam de um destinatário tanto quanto as outras. É notável o crescente número de escritores em Santo Antônio, pois a informação e ferramentas virtuais tornaram essa atividade mais sedutora e eficiente. Somente em Abril já está anunciado o lançamento de cinco livros literários para esse ano, além de publicações científicas produzidas pelas escolas e outras instituições no município. Os blogs também veem sendo outro meio pelo qual a escrita, literária ou não, está se popularizando.

    As artes plásticas como desenho e pintura seguem clandestinas, sobrevivendo entre trabalhos de ilustração e eventos fora da cidade, mas sem desistirem de se fazerem presentes através de publicações virtuais e pequenas intervenções na paisagem da cidade como essa aqui:

Arte urbana flagrada em 2012
    Vale lembrar que não sou especialista no assunto, mas não posso negar que gosto de escrever sobre ele. Sendo assim espero que tenham gostado e perdoem qualquer equívoco. Um abraço!

Felipe Essy

terça-feira, 25 de março de 2014

Quanto Vale uma História

   Buenas, pessoal. Hoje eu estava pensando em histórias, aquelas que marcam a gente e nos acompanham de alguma forma pelo resto de nossas vidas. Um livro, um filme, um desenho, até uma música, não importa o formato, histórias fazem parte da gente e é sobre isso que o post divaga hoje.


   Normalmente associamos histórias à fantasia, algo não real e quem aprecia uma leitura ou mesmo filmes acaba muitas vezes sendo visto como uma pessoa que se desconecta da realidade, entorpecida em seus sonhos de verão. Realmente a Terra-Média tem seus encantos, mas será mesmo isso que nos seduz nessa arte? Um meio de fugirmos dos nossos problemas? Acho que não. Na verdade, eu acredito justamente no contrário: Nós gostamos de histórias por que nos identificamos com ela.

   Desde as novelas das nove até as grandes tragédias shakespearianas, as histórias mais populares são aquelas que exploram temas que todo ser humano conhece e se depara em algum momento: sentimentos. Amor, ódio, vingança, medo, tudo que está em nós como uma bomba relógio prestes a estourar quando se colide com valores emocionais diferentes. Até mesmo nos grandes épicos da fantasia esses elementos são o que sustentam uma trama, pois se não há uma justificativa forte para os personagens se envolverem em uma empreitada, não conseguimos nos entregar a história, não nos apropriamos dela.

   O que diferencia uma história boa de uma ruim então? O quanto ela significa para nós e isso só acontece se houver algo ali que nos convença, que faça sentido, sendo assim um livro ou um filme, mesmo que de ficção, não nos cativa se não apresentar elementos que de certa forma trabalhem nossa realidade, seja através de problemáticas sociais ou emocionais, e é isso que torna algumas histórias tão importantes: por que em algum momento, nos inserimos naquele personagem rodeado de obstáculos esperando que ele nos mostre como chegar no ponto final.

Felipe Essy

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O Álibi da Menina que Roubava Livros

   Buenas, pessoal! O Oscar está chegando e um dos concorrentes, apesar de não ser um destaque na disputa, é a aguardada adaptação do bestseller A Menina que Roubava Livros, que nos mostra as pequenas desventuras de Liesel numa ruazinha alemã que a Morte parou para assistir em meio a segunda grande guerra mundial.



   O título inicialmente nós da a equivocada ideia de que o filme é sobre a curiosa compulsão literária de uma menina, mas acabamos percebendo que na verdade se trata das histórias ao redor da ladra, e não de seu encantamento por livros, ambientadas num lado do fronte que normalmente não vemos com tanta inocência durante a segunda guerra mundial: a dos alemães.

   A naturalidade com que o nazismo aparece no cotidiano das crianças durante o filme pode ser surpreendente para alguns, mas logo fica claro que alguns conterrâneos do ditador o temiam tanto quanto seus inimigos, um ponto de vista que normalmente não vemos muito nas grandes produções, nos contando uma história bonita que não se contamina pelo terror da época sem ser superficial, exatamente como um filme sobre uma criança que conseguia divertir-se com as letras no porão de casa enquanto as bombas caiam lá fora.


   Algo que aparece brevemente e poderia ter dado uma forma mais interessante ao filme seria a presença mais forte de sua narradora, a Morte. Ao contrário do que normalmente acontece, o livro narra a história pelo ponto de vista afastado do narrador que conta como se aquilo tivesse acontecido há muito tempo, raramente reproduzindo diálogos, mas sempre parando para nos explicar os xingamentos em alemão amavelmente desferidos entre os personagens. É provável que o diretor não quisesse ter o filme frequentemente interrompida pelos comentários da Morte e fazer o espectador esquecer que se tratam de apenas personagens, nos comovendo com histórias que podiam realmente terem acontecidos.

   Indicado ao Oscar apenas pela trilha sonora, não creio que seja o melhor elemento dentro do filme digno de nota. As composições de John Williams, responsável por temas lendários desde Star Wars até Harry Potter, embora belas, não parecem ser tão deslumbrantes a ponto de tirar outras trilhas produzidas em 2013 do páreo, como O Homem de Aço do também veterano Hans Zimmer. Na verdade, o que mais me chamou a atenção durante o filme foi o figurino.


   Apesar do contexto da história se tratar de um período onde a produção textil passava por grandes dificuldades em meio a guerra, as roupas produzidas por Anna Sheppard encantam pelos detalhes românticos como se realmente tivessem sido feitos em casa, como era comum entre os alemães que viviam basicamente do artesanato antes da revolução industrial. Provavelmente sua exclusão da premiação se deu justamente pela sua discrepância da beleza de seu figurino em relação a miséria do contexto da época, mas que é um belíssimo trabalho não há de se negar, assim como o resto do filme.

   Quinta-feira o blog volta com um post comentando algumas indicações do Oscar 2014. Um abraço!

Felipe Essy

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

11 Livros Que Me Livraram!

    Buenas, pessoal! Andei meio sumido do blog nas últimas semanas, afinal férias é aquela coisa: um dia você está num lugar e no outro nem sabe onde vai, então acabei não conseguindo parar muito na frente do computador, mas voltando ao mundo WI-FI recebi uma daquelas brincadeiras de listar livros favoritos e fazendo um esboço de alguns títulos, percebi que eu precisava falar pelo menos um pouquinho do que eles significam para mim, resultando no post que você vê a seguir:



SILMARILLION - J.R.R. Tolkien 


     Quando eu fiquei fascinado pelo universo lendário criado por Tolkien depois de ler O Senhor dos Anéis, eu sabia que esse livro era uma leitura essencial para conhece-lo e entende-lo melhor, no entanto O Silmarillion não se trate de uma narrativa sobre outra história, mas várias histórias que se sucedem e entrelaçam durante três eras, algo denso para quem esperava apenas mais um passeio pela Terra-Média, por isso inicialmente esse era o que eu menos gostava da obra completa, porém conforme eu fui relendo alguns capítulos e compreendendo melhor a história de um modo geral, a beleza daquele livro complexo me deixou assombrado e hoje sem dúvida é o meu preferido. Mesmo depois de várias leituras, ainda tenho muito para ler de novo e entender melhor por que cada leitura é uma nova leitura. Pessoalmente uma das coisas mais legais do livro (dentre muitas) é como Tolkien explica a relação entre o primeiro Senhor do Escuro e o Criador todo poderoso.


O FANTASMA DA ÓPERA – Gaston Leroux


     Meu professor de inglês na faculdade tinha uma paixão especial por peças musicais e fui enveredando pelo mesmo caminho. O fantasma da opera com toda sua presença de palco e seu tema retumbante foram suficientes para me fazerem procurar o livro e para minha surpresa descobri que sua história era muito melhor que as canções escritas por Andrew Webber para o musical. Na obra de Leroux, conhecemos pouco a pouco o personagem enigmático do ser que habita o subsolo da casa de ópera e, apesar de suas tramas cruéis, mostra-se cativante, nos conquistando com sua engenhosidade e dramaturgia. Um grande livro de poucas páginas, algo que os escritores aparentemente esqueceram como fazer.


HAMLET – Shakespeare


     Assim como Machado de Assis, o importante em Shakespeare não é o conteúdo, mas a forma. Em outras palavras, o enredo trágico da morte da família dinamarquesa assolada pela vingança não é algo que surpreenda muito, tratando-se de temas comuns na literatura e no cinema, mas sim como Shakespeare representa os conflitos morais de Hamlet assolado pelo fantasma do pai que clama justiça pelo seu assassinato contra seu tio e a própria ideia de família, tudo isso escrito no século VI. Pela profundidade se encontra na forma do texto e não no enredo em si, versões condensadas ou “modernizadas” tiram totalmente o sentido da leitura, então se for se aventurar encare o texto original.


DOM CASMURRO - Machado de Assis


     Não sou um puxa-saco do Machadão, como chamávamos na faculdade, mas há algo nas obras do Machado de Assis que eu sempre gostei e poucas pessoas se permitem notar: o humor. Embora eu tenha citado Dom Casmurro por ser meu preferido até agora do autor, em Memórias Póstumas de Brás Cubas a irreverência acida de Machado de Assim fica claro já na primeira página: "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas”. O tédio das leituras obrigatórias de Assis reside mais na frieza com que normalmente lemos as obras canonizadas no altar da sala de aula do que pelo real conteúdo da obra.


ENDER'S GAME - Scott Card



     Esqueça a adaptação para o cinema, que embora seja boa, não consegue transmitir os melhores aspectos do livro. Logo na introdução, Scott Card aborda sua própria forma de ver a literatura e como isso construiu o livro que originou vários outros no mesmo universo. Além desse fator extraliterário, Card consegue explorar diversas facetas de um povo que busca a superioridade, passando do oprimido para o opressor, enveredando por vários temas desde conflitos militares no espaço até os conflitos da relação entre a cultura dos conquistadores com a dos dizimados. Uma leitura agradável com muitas camadas de interpretação para aqueles que permitirem-se notar.


A ROSA DO POVO - Carlos Drummond de Andrade


      Numa conversa de corredor de biblioteca, um amigo fingia me indicar um livro para não chamar a atenção sobre o tema da nossa discussão e no final do assunto ele me disse: “ – Leva o livro, tu vai gostar”. Tanto foi verdade que fiz outros amigos meus lerem também, tornando-se meu livro preferido de poesia até agora, embora eu não tenho um conhecimento vasto desse gênero literário.


O PEQUENO PRÍNCIPE - Saint-Exupéry


      Minha mãe sempre me dizia para ler O Pequeno Príncipe, mas por algum motivo – talvez justamente esse – eu cresci sem jamais o fazer até que na faculdade minha adorável professora de literatura Terezinha Marques leu para nós a passagem da raposa, terminando às lágrimas e embargando nossas gargantas. Assim que eu li aquele que parecia apenas um livro infantil, compreendi perfeitamente por que ele é algo tão tocante ainda hoje: justamente por que explora temas – às vezes ásperos - da vida pela ótica crua de uma criança que desbrava as lógicas incompreensíveis do homem que acometem ele mesmo. Arrumando a antiga casa da minha avó onde moro atualmente, eu encontrei dois exemplares: um de 1960 e outro de 1975. Vendo que tinha a assinatura das antigas donas, pedi a todos que já tivessem pego emprestado assinassem na folha de rosto depois de ler.


PRIMEIROS CASOS DE POIROT - Agatha Christie


     Um dia minha tia Ingrid entregou um livro de folhas muito amarelas mal presas à capa de uma autora que eu desconhecia me dizendo pouco mais do que apenas “leia que você vai gostar”. Bem, ele acabou ficando na estante um tempo e por algum motivo decidi folhá-lo e não consegui parar. A lógica do detetive belga de bigodes era desconcertante e a cada história dos breves contos a engenhosidade dos criminosos e seu perspicaz investigador era impressionante. Primeiros Casos de Poirot foi o primeiro romance policial que li e me fez apaixonar pelo gênero, no entanto curiosamente nunca gostei do Sherlock Holmes de Conan Doyle por acha-lo exagerado demais para fazer sentido, algo como o CSI que refaz o trajeto de uma bala de munição usando um estilingue. Aham, ta.


MOCKINGJAY - Suzanne Collins


    Antes de mais nada, convém explicar que o livro em questão trata-se do ultimo volume da trilogia Jogos Vorazes, que optei por ignorar a tradução tosca de “A Esperança” por que é um verdadeiro desastre linguístico, mas não vou me deter nesse ponto. Assim como outros livros que cativam o publico adolescente, Mockingjay tem uma narrativa envolvente, mas destaca-se muito pela abordagem crítica dos mecanismos de manipulação e funcionamento da sociedade através de personagens que assumidamente não se interessam em virar heróis, algo claro no desfecho da trama. Katniss Everdeen poderia ter sido apenas mais uma dessas protagonistas femininas de livros adolescentes enfrentando uma grande causa em meio a um triângulo amoroso, mas Mockingjay mostra com uma beleza trágica que Katniss é apenas mais uma peça no tabuleiro como todo mundo, mas fazendo parte dele, também pode mudá-lo. 


O TEMPO E O VENTO: O CONTINENTE - Érico Verissimo


      Uma obra que já é grande por natureza em todos os sentidos: a história de um povo através das lutas silenciosas ou explosivas de inúmeros personagens ao longo de sete volumes. A obra-prima de Érico Verissimo é importante para mim não apenas por que tem um enredo envolvente com personagens cativantes, ou mesmo por que fala da formação do pequeno mundo rio-grandense em que vivo, mas pela maestria com que ele conseguiu reproduzir a assombrosa literatura do tempo, sussurrada pelo vento.


HISTÓRIAS PARA AS NOITES DE INVERNO – Ivone Selistre

A primeira edição à esquerda, com dedicatória ao meu pai, e a segunda a direita para mim.
      A ideia inicial era falar de apenas 10 livros, mas quando eu listei esses livros, não consegui tirar as Histórias Para As Noites de Inverno. Um livro que eu lembro de ver várias vezes pela casa, pois minha mãe dava aulas de literatura, mas não era para mim nada se não uma capa conhecida até que um tempo depois conheci a querida autora na ocasião da primeira feira do livro em Santo Antônio, em que foi patrona. Num encontro do Grêmio Literário em sua casa, ganhei de presente seu livro que me surpreendeu com o sabor da leitura, pois fiquei impressionado em saber que uma escritora tão talentosa morava a poucos passos da minha casa. Esse livro de poucas páginas e muita diversão me faz sentir orgulho de morar em Santo Antônio e empolgado imaginando quanta gente incrível tem por aí prestes a aparecer.


    Espero que tenham gostado pessoal, por que para mim foi um prazer enorme falar desses livros. Ruim mesmo foi ter que escolher! Aquele abraço!

Felipe Essy